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“Mãe, por que eles fizeram isso comigo?”

Rossana ainda repete com lágrimas a frase do filho, durante o resgate. Douglas foi baleado por um policial militar num bairro pobre de São Paulo e morreu logo depois de chegar ao hospital.

 

Eu arrepiei quando vi os olhos da mãe cheios de lágrimas, me contando a história durante uma entrevista, como se tivesse acontecido ontem. Faz três anos que ela perdeu o filho, mas a ferida não cicatrizou.

 

Essa deve ser, sem dúvida, a maior dor do mundo. Infelizmente, enquanto escrevo e você lê, é provável que mais algum jovem esteja sendo baleado numa periferia da vida. Afinal, 29 crianças e adolescentes morrem todos os dias de forma violenta no Brasil, segundo dados do novo Mapa da Violência. Daria pra encher um caminhão de sonhos grandiosos desperdiçados. Tão triste.

 

Douglas morreu sem ter a resposta. Mas nós sabemos que ele foi baleado porque era negro. E pobre. O menino foi vítima de ‘filtragem racial’, um termo ainda pouco conhecido, que a ONU está divulgando na campanha VIDAS NEGRAS, da Década Internacional de Afrodescendentes. A filtragem é quando uma pessoa é escolhida como alvo apenas pela cor.

 

O vídeo da campanha, que já começou a circular até pelo WhatsApp é protagonizado pela atriz Taís Araújo, que recentemente deu uma palestra no TEDx (é só dar um google) sobre como criar filhos doces num país ácido como o nosso. Ela tem dois filhos e disse que tem pavor de pensar na realidade do Brasil. “Liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir se ele andar pelas ruas descalço, sem camisa, suado, saindo da aula de futebol. Ele corre o risco de ser apontado como um infrator. Mesmo com seis anos!” Taís continua: “No Brasil, a cor do meu filho é a que faz as pessoas atravessarem a rua, blindarem o carro…”

 

E tem gente que ainda acha que pode fazer piada preconceituosa e racista. “…Coisa de preto é manter-se grande diante de quem mata”, lembrou Lázaro Ramos, marido de Taís, ao rebater o comentário infame do âncora da Globo.

 

Branca, não sei o que o que é ser vítima de preconceito racial. Mas sou capaz de entender a dor de todas essas mães e famílias e também temo pelos meus filhos. Porque o racismo não prejudica apenas quem é vítima direta. O preconceito, a desigualdade e a violência se voltam contra todos nós. O Brasil é o sétimo país do mundo que mais mata adolescentes, segundo a ONU. Mais até do que o Afeganistão!

 

Pra ter um país melhor para os nossos filhos e poder andar pelas ruas sem medo, a gente precisa eliminar o preconceito, lutar contra a desigualdade, se colocar no lugar do outro, se solidarizar com a dor. Ser capaz de se revoltar com injustiças e pensar: e se fosse com o meu filho?

 

*  A mudança que a gente quer ver no mundo começa pelo nosso olhar, dentro de nós. Assista e deixe seu comentário aqui.