Uma coisa que a gente aprende na análise é buscar caminhos para viver melhor, apesar dos pesares.

foto: Pixabay

 

 

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Estava grávida da minha segunda filha quando passei a acompanhar o drama de uma amiga de intercâmbio, americana, que tinha descoberto um câncer raríssimo no cérebro do filho que tinha dois anos à época. Era 2012, e ela compartilhava as histórias sobre as internações, tratamentos e cirurgias pelo Facebook.

Eu acompanhava de longe, diariamente, lamentando que casos como o dele pudessem interromper os sonhos e planos de uma família que tinha tudo para ser feliz. Sofria por ela e torcia para que eles conseguissem combater a doença, já que havia uma chance de cura.

O problema é que, apesar da minha comoção, eu não podia fazer nada e aquilo começou a me causar muito mal. Passei a temer que a minha gravidez desse errado, que minha filha tivesse problemas e até desconfiava de ultrassons… Afinal, se a minha amiga foi atingida, por que eu seria poupada? Era o que eu pensava.

Com a ajuda da análise, consegui dar um basta nesse ciclo, para o meu próprio bem. Foi como quem larga o cigarro, de repente. Deixei de ler artigos em inglês sobre o tal tumor ou notícias sobre o tratamento do Valentino e de amiguinhos dele no hospital. Pra mim, parecia egoísmo, mas eu precisava me poupar.

Aquela mudança foi um marco na minha vida. Aprendi que se a gente vive temendo que coisas ruins aconteçam conosco, não conseguimos viver bem. Ali, encontrei um caminho para me “proteger” de pensamentos e notícias que me faziam ou que me fazem muito mal. Muitas  vezes, é melhor não ler. Não ver. Não saber.

A gente tem de se indignar, claro. Como aceitar, por exemplo, que um bebê tenha sido atingido por uma bala perdida no útero da mãe e corra o risco de ficar paraplégico? Quase tive um troço quando essa notícia brotou na minha frente! Como aceitar que o Rio tenha sido sucateado por uma corja de corruptos que corroeu serviços públicos, a saúde, a segurança pública e o futuro de tantas famílias?

É inaceitável! A gente precisa se posicionar, cobrar e, principalmente, exigir a punição exemplar de todos os envolvidos em casos como esse e em corrupção. Mas a gente também precisa conseguir acreditar que as coisas serão melhores.

No meu caminho de auto proteção, continuo buscando a leveza. Apesar da recessão, da doença e da violência. Apesar dos pesares.

Obs.: a notícia do bebê me fez mudar completamente o texto que pensava escrever aqui. Mas o vídeo já estava gravado. De alguma forma, ele também tem a ver com isso, já que é sobre a resiliência. A capacidade de se adaptar a má sorte. Afinal, esse é o único caminho para gente conseguir seguir em frente.