Quem conhece alguém que fez cesariana sem querer? Eu sou um exemplo. Sempre tive aflição dessa história de cortar sete camadas pra chegar até o bebê, mas não pude evitar. No país que está entre os líderes mundiais das cesáreas, em que boa parte das mulheres marca a data do parto porque não quer “sofrer à toa”, eu faço parte do grupo que não teve opção.

 

Foi um ultrassom que me mandou pro primeiro parto. Era 10 de fevereiro de 2009. Rafael estava previsto pra 07 de março. A reta final estava sofrida e era dia de ultrassom. Poucos minutos depois das primeiras imagens, o médico pede uns minutinhos, sai da sala – eu e meu marido não entendemos nada – e volta: “Então, tá tudo bem com o bebê, mas seu parto é hoje!”

 

“Hoje? Como assim? Falta quase um mês! E o pior dos muitos pensamentos: “Ai, meu Deus! A Dra. Paula me avisou no começo que só não faria parto normal se fosse prematuro.” Pra minha tristeza, não consegui escapar da cesárea. A placenta envelheceu antes da hora, não tinha líquido suficiente e isso é um risco pro bebê.

 

Fui pra maternidade com 36 semanas e 2 dias. Choro e medo tomaram conta daquela grávida que nunca tinha pensado em fazer cirurgia pra ter filho. Fora a sensação de derrota (que eu consegui combater), num momento tão delicado. Tem mulher que fica péssima.

 

Fefel nasceu roxo, no início da madrugada do dia 11/02/2009. Mas chegou bem. A felicidade de ter filhos saudáveis no colo eliminou a decepção e o sentimento de impotência. Com o tempo, também me apeguei ao que pra mim foi uma grande conquista: conseguir amamentar bastante, durante muitos meses, e até doar leite.

 

Ainda assim, eu ainda queria tentar um parto normal. Depois de quase quatro anos do primeiro filho, estava convencida de que, na segunda, finalmente conseguiria. Too bad. Pra muitas mulheres, a gravidez já é um atestado de que a gente não tem o controle de tudo como gostaria. Uma varize pélvica, com risco de trombose, acabou com aquele sonho. Lá fui eu pra segunda cesárea sem querer.

 

Ver a Kate saindo princesa depois de menos de 6 horas do terceiro parto é como “um tapa na cara” de quem queria ter tido filhos assim, mas não conseguiu. É inevitável a comparação: até ela conseguiu e eu não.

 

Entendo o quanto é importante esse exemplo para mulheres que temem um parto normal, que pensam na cesárea já no teste positivo de gravidez. Afinal, a história e a imagem de Kate desmistificam a crença e a cultura equivocada de que parto normal não é para qualquer uma.

 

MAS, é importante considerar também que, até as mulheres que conseguiram, não saem incríveis, bem penteadas e serenas, posando pra fotos, poucas horas depois. Isso é coisa pra princesa.

Tem mais: depois de vários partos normais, muitas mulheres carregam problemas dos quais a gente pouco ouve dizer. Quer saber?

 

Antes, é importante dizer que deu tudo certo no final do caso que vou contar. Minha amiga Ana teve dois partos normais e, depois de um tempo, precisou fazer uma cirurgia pra colocar a bexiga no lugar e reorganizar tudo internamente, além de reconstruir o períneo.

 

O primeiro trabalho de parto dela só foi dar problema depois de 8 dedos de dilatação, quando o bebê não passava e não dava pra voltar atrás. Foi preciso fazer um forceps de alívio. Ainda no hospital, a pressão chegou a 3 porque perdeu muito sangue. Ela desmaiou três vezes.

 

Ana conta que, depois, durante anos, não podia nem espirrar porque escapava xixi. A tal da incontinência, segundo a minha fisioterapeuta, é mais comum do que a gente imagina. Bom, essa amiga adiou a cirurgia para depois da segunda filha, Lorena, que “nasceu sozinha, porque o irmão já tinha feito o trabalho e aberto o caminho”. Ela conta essa história rindo.

 

“Tem mulheres que forçam muito a barra pra ter parto normal. Que acham que se não for assim, estão deixando de cumprir uma missão importante na vida dos filhos. Pura bobagem!”, garante.

 

Num esforço para reduzir o número de cesáreas praticadas no mundo, a Organização Mundial da Saúde publicou, em fevereiro, recomendações para acabar com a “epidemia” de cesáreas no Brasil. As estatísticas mostram que, em 2016, 55,6% dos partos no país foram por cesariana, a segunda maior taxa do mundo.

 

As mulheres precisam ser encorajadas. Mas há o extremo que pressiona. Em tempos que lutamos para respeitar o desejo, o corpo e a individualidade de cada um, é importante reconhecer também que nem todas estão preparadas psicologicamente para o parto normal.

 

Independentemente da forma como cada criança vem ao mundo, bom mesmo é quando a gente consegue compreender e aceitar que cada história é única.

 

Que o exemplo da Kate seja um estímulo para muitas mulheres que temem o parto normal. Mas que não se transforme numa agressão constante para as que não conseguiram ou para as que não quiseram ter parto normal.

 

** Quando a gente se compara, em qualquer situação, a vida fica muito mais difícil. No vídeo, conto uma história surpreendente que aconteceu aqui em casa e vale pra vida.

 

By the way, nós adoramos a Kate. E já amamos o Louis Arthur Charles.

 

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