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O mundo parece acabar, mas eu posso dizer que já estive em situação pior. Acredite! Afinal, não há nada mais impactante do que você ser tirado do seu rumo, de forma violenta.

 

Tudo aconteceu em 2003. Eu tinha acabado de me casar. Morava em Belo Horizonte, minha cidade natal. Tinha o emprego dos meus sonhos – a função ainda não era a que eu desejava, mas trabalhava na Globo. Era o meu primeiro emprego como jornalista e aquela conquista só me fazia acreditar que a gente pode realizar sonhos honestamente, com garra, determinação e muito trabalho.

 

Eu era jovem demais, ingenua, sonhadora. Era tão bom!

 

Eram outros tempos. Imagine se poderíamos imaginar o que acontece no Brasil…Impensável!

 

Pois ontem acordei com a notícia: “Andrea Neves, irmã de Aécio, foi presa!”

 

“Como assim?”, pensei! E passei boa parte do dia recebendo mensagens, por whatsapp ou direct no Instagram, de amigas queridas dizendo coisas do tipo: “Só pensei em você!”; “A justiça de Deus tarda, mas não falha! Da justiça divina ninguém escapa.”; “Hoje a justiça foi feita. Nenhum mal dura para sempre, Pri!”. Para todas elas, respondi sinceramente: “Tenho dó.”

 

Se você é radical, nunca vai me entender. Mas eu tenho a alma leve. E isso é libertador!

 

Confesso que até me surpreendo com a minha capacidade de ter esse sentimento por alguém que participou de uma das maiores perdas da minha vida. Perdi o emprego, perdi a cidade, fui pra longe da família, sofri… Mas o que não mata nos fortalece. Certo?

 

E nunca tive dúvidas das minhas escolhas. Sempre soube que estava ao lado de uma pessoa trabalhadora, honesta, brilhante e sonhadora, como eu. Sempre dei mais valor para o ser e não para o ter! Parece tão raro.

 

Quando tudo aconteceu, Aécio era governador de Minas. Meu marido, diretor de Jornalismo da Globo. Ele autorizou a veiculação de reportagens denunciando o consumo de drogas na porta de um batalhão da polícia. Era uma denúncia, fazíamos bom jornalismo. Catorze anos depois, continua sendo um absurdo. Ou não?

 

Mas, na época, incomodou demais. Pra resumir, Andrea Neves, que já tinha o hábito de reclamar com jornais e revistas em Minas de reportagens contra o governo do irmão dela, foi se queixar com a direção. Não encontrou resistência. Pelo contrário, ouviu do diretor regional que deveria ir ao Rio reclamar. E foi.

 

Quem contou essa parte da história foi ela mesma, alguns anos depois, num casamento numa fazenda em Tiradentes. Aécio era um dos padrinhos. Eu e meu marido fomos de longe para lá. Era uma data importante, ele queria prestigiar o amigo que casava.

 

Já tínhamos nos ‘recuperado’ do trauma, trabalhávamos felizes no Nordeste. Mas havia uma cicatriz, claro. Afinal, perdemos muito.

 

Foi quando aconteceu o inimaginável: Andrea fez questão de chamar meu marido num canto, durante a festa. Ele não queria, mas, a pedido do noivo, aceitou ouví-la. Era, no mínimo, intrigante. Bom, chegando lá, ela pediu desculpas. Jurou que nunca imaginou que ele poderia ser demitido se ela reclamasse com a direção da cobertura jornalística.

 

Tive raiva quando soube. Revivi, lamentei que tivéssemos sido tão prejudicados. E até duvidei.

 

Mas, depois, sinceramente, acreditei em parte do que ela disse. Há uma chance, ainda que mínima, dela realmente ter pensado que a TV simplesmente estancaria esse tipo de denúncia, sem demitir. Será ilusão e ingenuidade da minha parte?

 

Talvez, se os tempos fossem esses de agora, com redes sociais, povo na rua, hashtags e da busca necessária pela imparcialidade, nosso destino teria sido outro.

 

Bom, isso agora não importa. Alguém pode resgatar o que foi perdido?

 

O que me motiva a mexer nessa cicatriz, na verdade, é declarar que não há nada melhor na vida do que dormir tranquila. Apesar dos baques, dos golpes, das tristezas e das perdas… Pior que perder o sonho é perder a paz.

 

Sempre fomos do bem, nunca quisemos prejudicar ninguém. Nunca desejei o mal de ninguém.

 

Aliás, isso é o que ensinamos em casa para os nossos filhos.

 

Diante de tanto mal, de tanta polaridade, de tanto ódio, de tantas denúncias, de tantas perdas, do país em ruínas, não desejar o mal é um mérito.

 

Como numa sessão de análise, eu finalizo esse texto com o título e o tema do vídeo que eu publicaria hoje, mas que fica pra semana que vem: “Pra ser feliz!”.

 

Porque pra ser feliz, você não precisa de muito. Muito menos de milhões. Você snão precisa de poder. Muito menos de tirar pessoas da sua frente a qualquer custo, para conquistar o que você deseja.

 

É verdade que você corre o risco de não chegar lá. Mas, os fins não justificam os meios!

 

Bom mesmo é ter leveza. Com perdas ou conquistas, o que a gente carrega é a nossa alma, o nosso corpo, a consciência. A nossa história e os sonhos… Que, apesar dos pesares, continuam vivos, livres e soltos.