Esse negócio de amizade é lindo. Diverte, consola, ajuda. É o que torna menos miserável a vida em escolas, faculdades e locais de trabalho. Amizade é tudo de bom, é superior, é divino – mas pode ser algo ainda mais precioso. Pode virar amor de verdade – carnal, suarento e completo.

 

Acontece meio sem-querer. Ah, sei lá, tava escuro, tocava uma música romântico-suicida da Adele, os estavam dois carentes – e pronto: veio o primeiro beijo. Amigos não se beijam assim. Esse abraço aí… também não é de amizade. Ôpa. Amigos, quando se abraçam, demonstram afeição esfregando a mãozinha nas costas um do outro. A mão não fica assim, no joelho da outra pessoa, de butuca, esperando o Pisco Sauer fazer sua mágica.

 

Aproveitem, portanto. Saiam gastando o batom. Namoros que nascem entre amigos são evoluções. Já começam com anos de convívio; já existe afinidade. E a vida está brigada. Hoje, a pessoa balança a árvore e só cai traste. Recrutar um amor nas amizades é garantia de qualidade na procedência, que nem se vê em rótulo de vinho. Sabe D.O.C.? Denominação de Origem Controlada, aquele selinho? Sem contar a delícia que é satisfazer a curiosidade alimentada desde o Maternal II: como será que ela é sem roupa? Será que o dele é torto?

 

Mas vamos enfrentar a realidade: há o perigo de azedar a relação – porque amores costumam ser muito mais arrebatadores que amizades. Então, pode ser importante entender o que se passa, fazer uma previsão do desastre. Será que isso é amor, ou só estamos testando alternativas ao Netflix ? Há duas direções a se tomar, pra deixar o panorama mais claro: a do papo cabeça, e a de deixar rolar. A do papo cabeça é ruim. Preferível perder a unha numa topada do que começar um romance na DR. Deixar rolar é mais divertido – mas não resolve de cara. Leva semanas para clarear o horizonte emocional. Se a pessoa é ansiosa, um bom jeito de saber rápido o status da relação é invocar o Acordo da Sexta Feira à Noite. Está implícito que os dois vão se ver – ou tem que ligar antes para combinar? Se não precisar de contato prévio, se o encontro for compulsório, a amizade foi pra cucuia. Oba!

 

O cuidado na condução do romance se justifica. Existem diferenças entre amor e afeição. Tem coisas aceitáveis entre amigos – mas não entre namorados. Sair com outras pessoas pode ser saudável para uma amizade. Para um namoro, nossa mãe, melhor não. Perde-se o amor, a amizade e uns dois dentes da frente.

 

Mas, no fim, e daí se destruir a amizade? Há várias outras coisas que podem provocar tal hecatombe: fofoca, traição, inveja, política, futebol, facebook, ambição, viagem em turma, distância, conta do restaurante e etecéteras. Se a amizade vai acabar, que seja por causa nobre: o amor. É melhor do que brigar por causa de dinheiro ou de candidato a prefeito, por exemplo. Amor é o fim mais digno que qualquer relação pode ter. É algo que se deseja até ao pior inimigo.