Estamos na mesa de jantar. Primeiro encontro. O homem já foi buscar a moça, escolheu o restaurante e o vinho. Incentivou uma sobremesa (ela recusou dieteticamente). Aí chega a conta. Quem paga? Ele – o arrimo, o alfa, o sexo forte? Ou a conta é dividida em partes iguais, porque a mulher do século 21 não precisa dessas coisas banais e, se bobear, ganha até mais que ele?

 

Eu imaginava que era meio óbvio, isso. Quem paga a conta é ele. Que me desculpem as feministas. Podem me chamar de careta, ultrapassado, antigo, bafiento, enrugado e até broxa (que não tem nada a ver com o assunto, mas sempre funciona quando se quer ofender homens). Eu acho e pronto.

 

Gosto da igualdade dos sexos.Hoje em dia, se posicionar contra isso é como negar a existência da globalização ou do Netflix. Sou o primeiro a querer gastar menos. Para quem vive vendendo o almoço pra comprar janta, ter ajuda nas despesas é ótimo. Só que pagar a conta não tem nada a ver com feminismo ou com igualdade. Tem a ver com cortesia, com cortejar a sua dama. Pertence à categoria da gentileza, da polidez. Como abrir a porta do carro pra ela entrar ou mandar flores. Acabar com esses hábitos seria renegar o que de mais lindo existe na sedução: a prostração do macho diante da beleza indiscutível da mulher. Tenho certeza que até a mais cruel das feministas quer ser devidamente adulada. Ah, você não gosta da ideia? Faz questão de mostrar sua independência financeira? Comigo, não. E não adianta reclamar. Vá brigar com os franceses, que inventaram o xaveco profissional em mil, seiscentos e guaraná-com-rolha.

 

Aí, o que acontece ? Como bagunçou tudo depois que o Tinder chegou, a moça fica constrangida na hora que vem a dolorosa. Desconversa, olha pra cima, assobia uma canção do Erasmo – algumas até desenvolvem um timing fisiológico superior, fugindo pro banheiro bem na hora que o garçom traz a fatura. Não tenha vergonha, querida. É ele quem paga. Você só agradece com o charme de quem não precisa – mas, vá lá, aceita.

 

Mas vamos combinar que a vida anda cara. Dependendo do restaurante, somando o valet-parking, sujeito deixa as calças, as ceroulas e até a cueca – revelando segredos íntimos que deveriam ser guardados somente para a alcova. E se ele não estiver com condições de oferecer à dama o que ela merece ? Então faça a adequação de orçamentos. Não dá pra ir no DOM? Vá ao quilo do Shopping Paulista – mas, pelamor, pague. Se você está liso, melhor ser romântico do que cara de pau. Quando a doação de sangue era remunerada (até 1980), muitos homens iam literalmente sangrar para faturar uma grana, e depois sair com suas namoradas. Isso rolava muito na época da Bossa Nova. Aliás, duvido que Tom Jobim rachasse conta. Poetas são durangos, mas sabem agradar. É com borogodó, não com cartão de crédito.

 

Com o tempo, com o casal dando certo e se solidificando, essa questão da conta tende a sumir. Porque teoricamente as finanças se juntam, então tanto faz quem paga – o buraco é o mesmo. Mas, por favor, não me faça passar carão. Se o homem entrar muito nessa de dividir conta, se começar a achar isso aceitável, daqui a pouco estaremos separando uma rúcula pra um lado, um chopp pra outro. Se for pra queimar o filme da raça masculina, então faça direito: nem busque a prometida em casa. Combine de encontrar direto no restaurante. Ou, melhor ainda: dentro do cinema, cada um pagando a sua.