Sidarta Gautama, o Buda, criou os fundamentos da sua religião pensando. Sentado embaixo da árvore, tomando uma cerva (já existia faz tempo), deixando o cérebro investigar os dilemas da vida. Não teve nenhuma revelação divina – nem anjo, nem Rei Hamlet. Ninguém pra dar um toque, ajudar, aconselhar. Foi puro uso da razão mesmo.

 

Por isso que algumas coisas no Budismo transcendem a religião. São conceitos criados a partir de muito raciocínio, que combinam com qualquer ser humano, xiita ou evangélico. Tipo a noção de Caminho do Meio. Nem tanto lá, nem tanto aqui – o meio-termo. O centrão. Se você for adotar isso pra sua vida, não arruma energia negativa.

 

É joia, o Budismo. Produz seres humanos melhores – mas tem seus desafios. Difícil fazer o que os caras sugerem; tem que ser muito maduro. É gente que busca sempre a paz, a harmonia – coisa quase sempre boa. Quase sempre. Veja o próprio Caminho do Meio. Que lance mais iluminado. Mas, vamos combinar, não resolve. Porque o mundo precisa de malucos, como foram Newton, Einstein, Chaplin e Jimi Hendrix. Tem que ter gente caminhando na beirinha, senão empacamos.

 

Outra ideia difícil de seguir é o desapego. Simplificando, Buda dizia que o sofrimento é causado pelo desejo. Pela vontade de ter o que traria felicidade – pode ser um carro novo, pode ser o último IPhone, pode ser até uma namorada. Só que felicidade é uma coisa sua, interna – e não precisa de algo de fora pra existir. O estado de espírito está em você – não no presente embaixo da árvore. Então, o melhor jeito pra ser feliz seria praticando o desapego. Desencanando de ter as coisas, percebendo que não depende delas. O próprio Sidarta, quando se tocou disso, saiu andando somente com a roupa do corpo e uma caneca vazia.

 

Difícil praticar desapego justamente no natal. E outra: vai passar uns dias em Teresina, Piauí. Vê se você não se apega ao ar condicionado. Chega em casa depois de trabalhar doze horas no presídio e vê se você não precisa um travesseiro. Não é só desejo de ter – é também compensação. Tenho certeza que o mundo, hoje, tem mais encheções de saco que na época de Buda. Ele nunca precisou ligar pra operadora de TV a cabo, por exemplo.

 

Se eu quisesse sair por aí, não ia ser só eu e a roupa do corpo, não. O quê? Não vou vagar pelo mundo sem desodorante e protetor pra careca. E também não saio de casa sem um Ipad pra assistir The Knick – me apeguei ao seriado, fazer o quê? E também meu Kindle. E spray pra desentupir nariz, senão não durmo. E vela de citronela pra espantar pernilongo, senão ninguém dorme.

 

Eu também me apego muito às pessoas. O Primeiro Buda se mandou deixando para trás a própria esposa, sem bilhetinho nem inventar que ia comprar cigarro. Aí, definitivamente, não. Com todo respeito. A alegria só existe com a alma gêmea ao lado. Felicidade tem que ser compartilhada, mais ainda em dezembro. Lamento, Sid. Gosto de você, gosto do que você fala – mas não dá pra sair pelo mundo sem alguém pra fazer dengo. Sem contar que é complicado. Você só largou sua esposa assim, no mole, porque naquela época, além de TV a cabo, não havia advogado.