A indústria da vaidade nunca passa por dor de barriga. Primeiro, porque não é elegante. Depois porque sempre foi assim. Lembro de crises espetaculares que mal chegavam nos tornozelos da L’Oréal. Fácil entender: a auto-estima sempre foi um refúgio seguro para atravessar tempestades. A pessoa podia estar devendo os tubos – mas pelo menos continuava bonita, recebendo elogio e energia positiva. Essa característica do setor passar pelas crises ileso, sem nem despentear o cabelo, tem até nome: Efeito Batom.

 

Agora, leio que a venda de cosméticos no Brasil caiu. Primeira vez em 23 anos. Sim, está acontecendo: há registros de pessoas andando pelas ruas sem sequer uma base pra esconder a olheira. Pelo zapzap chegam relatos de executivos sem nenhum perfume, tendo que atravessar o dia só no desodorante roll-on. As manicures estão às moscas e não quero nem imaginar como estão as clínicas de depilação.

 

Algo que nunca tinha acontecido antes na história desse país.

 

O brasileiro, durante a indigência, sempre preferiu comprar um creminho pro rosto do que economizar. Fazemos questão de aparentar – mais do que estar bem. Somos um povo lindo (todo mundo fala) que atravessa apertos sem perder o charme. Foi assim em 73, 79, 82, 87, 90, 94, 97, 2001, 2002, 2008, 2013, 2014 – e agora. Tenho a sensação que pulei alguma crise. São tantas que a gente acaba confundindo. A de 90 foi a do confisco da poupança? Crise por aqui é como eleição: uma a cada dois anos.

 

Estamos mais lisos que bunda de anjo. Todo mundo, dos coxas aos petralhas. Eu mesmo já considerei vender o corpo – mas desisti porque as minhas perspectivas de lucro eram pequenas. Durante as crises eu invisto muito em scotch; se depender da forma física não pago nem a conta da padaria.

 

Tínhamos que estar acostumados. A gente deveria ter estocado batom. Ou feito maquiagem definitiva lá nos dias de bonança. Ou combinado um esquema de boleto com o dermatologista. Dever pro banco já é um golpe terrível no amor próprio; ninguém precisa incrementar a tortura com um nariz igual a um campo de golfe, cheio de buracos pretos.

 

Temos que manter a dignidade. A vaidade, principalmente. Um elogio aplaca qualquer saldo negativo. Até a cantada de pedreiro ajuda, se vier na hora certa – e se respeitar a diplomacia. Luise, da Bahia, estava borocoxô, negativa no banco. Inadvertidamente passou diante de um tapume de obra. Ouviu um refinado “está muito elegante, viu, dona?” que lhe clareou o horizonte – como cantava Jimmy Cliff.

 

Durante adversidades, o xaveco funciona como reconhecimento: é alguém notando seu esforço, mesmo com tudo jogando contra. Isso ajuda muito. Cuidar da beleza é luta. É resistência, faca no dente. É exatamente porque estamos até o pescoço de lama que não podemos abaixar a cabeça. Não podemos deixar de comprar batom. Não estou pedindo delineador nem silicone. Só o batom já ajuda.