Acho indecente chegar para alguém de dezoito anos e dizer: vai, escolhe aí sua profissão. Nessa idade, você não tem ideia de qual pijama pretende pôr de noite, quanto mais saber a carreira que vai seguir pelo resto da vida. E justamente esse é o problema de uma decisão tão prematura: prazo. O resto da vida é muito tempo.

 

Principalmente porque o que faz a pessoa feliz é trabalhar com o que se gosta, com a verdadeira vocação. E isso demora pra aparecer, pra boiar na superfície das possibilidades. Pra muita gente essa descoberta não surge assim, feito espinha, durante a adolescência. Tem uma rapaziada muito boa que descobriu seu próprio Caminho de Compostela bem mais tarde.

 

Começo com um caso antigo: Lorenzo Da Ponte. Era padre em Veneza em 1773 – mas um padre possuído pelo espírito da boemia. Um dia, Lorenzo engravidou uma moça e teve que fugir. Foi pra Viena, onde conheceu Mozart. Com ele, compôs Bodas de Fígaro. Manja? Fígaro lá, Fígaro cá? Então. Aí acusaram o Lorenzo de fofocar sobre a corte – e o castelo dele caiu. Correu pra Londres. Tentou trabalhar com teatro, não deu certo (mesmo sendo na terra de Shakespeare). Se mudou para os States. Abriu lá um armazém. Depois uma livraria. Depois se tornou o primeiro professor de italiano na Columbia University, em New York. Veja quantas vidas Lorenzo viveu numa só – e isso numa época em que as pessoas duravam quinze minutos; qualquer topada de dedinho era fatal.

 

Outro exemplo: José Saramago. Ele era crítico de teatro num jornal. Aí, estourou a Revolução dos Cravos (foi bonita a festa, pá), e ele acabou saindo do trabalho. Resolveu que não ia procurar outro emprego. Ia atrás da sua vocação: a literatura. E, finalmente, aos 58 anos, conheceu o sucesso com seu segundo livro – Levantado do Chão. Note bem: com seu segundo livro. Tem gente que desiste no primeiro fracasso, sempre um erro – porque criar é insistir. No caso do Saramago, esta tardia aptidão para a literatura rendeu Prêmio Nobel. O único de toda Língua Portuguesa.

 

Sebastião Salgado, talvez o maior foto-jornalista vivo, pegou pela primeira vez em uma câmera de fotografia aos 30 anos. Elvis Costello era programador de computador antes de ser guitarrista (e casar com Diana Krall, coisa que jamais conseguiria operando um IBM360). Whoopy Goldberg era maquiadora de defuntos. Harrisson Ford, carpinteiro. Ellen Degeneres abria custáceos em um restaurante. Tudo gente que só achou o rumo muito depois da maioridade.

 

Falei de vocação, mas tem outra coisa que demora para aparecer também: conhecimento. Leva tempo para acumular e custa caro. Livros, discos, viagens. Nessa jornada costumam surgir outros interesses, outras curiosidades que não havia antes. Sujeito não pode largar a advocacia pra ser um Lama se ainda não conheceu o Budismo.

 

Profissões morrem e nascem todos os dias, por que você não pode se reinventar também? Sujeito entra na faculdade e antes de sair já surgiram outras mil carreiras. Recentemente descobri uma: cool hunter. Traduzindo,“caçador de tendências” (estou fazendo aspas com os dedos). O profissional que mapeia aquilo que as pessoas estão achando legais. Eu pensava que bastava ir num bar para saber o que é cool, mas não: tem curso disso. Em Londres, terra de Shakespeare.

 

Não acho que mudar é um ato de coragem, pelo contrário. Corajoso é aquele que permanece andando no trilho mesmo vendo o trem vindo na sua direção. Mudar é um ato de sobrevivência – e basta estar infeliz para isso. Ficar a vida toda naquilo que não se gosta é muito ruim pra saúde. Dá úlceras, coceiras, tarjas pretas. Aos 18 ou aos 80, quem fica parado a onda leva e o hospital acolhe.