Muitos emails e cartas e faxes chegando à redação, todos versando sobre a primeira noite de um casal. Veja: não são mensagens comentando sobre peripécias sexuais, tamanho da anatomia específica ou duração do ato em si. Longe disso: falam sobre o primeiro sono a dois. É uma descoberta. Os hábitos noturnos de um casal são sempre revelados tarde demais, quando os pombinhos já bocejam e não tem como voltar atrás, pedindo asilo no sofá da recepção da pousada.

 

O primeiro susto é o mais óbvio: aquela pessoa tão doce e delicada ronca feito uma britadeira de uso exclusivo do exército. Quando é homem, o susto é menor e muitas vezes o próprio roncador avisa – eu faço barulhos de noite. Mas acontece de existirem mulheres que roncam, também. Direitos iguais, meu povo. Agora, se hoje o ronco noturno masculino é algo muito bem absorvido pela sociedade, o mesmo não se aplica ao feminino. Ainda há preconceito. O tema é tabu. Não é toda mulher que sabe (ou aceita) que ronca, e nem todo homem tem coragem de, no dia seguinte, comentar o assunto abertamente na mesa do café.

 

Outro problema tem a ver com o acaso. Tem gente que gosta de dormir de conchinha, tem gente que detesta que encostem. Só uma imensa sorte na vida para casar preferências. Há também aqueles que têm sono hiperativo. Beatriz O. descobriu, logo na primeira noite, que o namorado se mexia mais que o Rafael Nadal na hora do saque. Mais do que só se mexer, golpeava as costelas da parceira com o joelho sempre que sonhava. Era um sujeito de imaginação fértil, então você imagine o estado em que as costelas da moça acordaram.

 

Mais casos. Carlos Alberto X. estava encantado com sua namorada. Sonhava em dormir junto e acordar junto. Mas, na noite inaugural, em Campos do Jordão (dois graus Celsius), ela decidiu esquentar os pés na batata da perna do amado. A temperatura dela, nessa porção inferior, era a mesma do Ötzi – aquele sujeito que acharam congelado nos Alpes. O casal adotou meias de amianto para dormir e estão juntos até hoje. Outro caso de incompatibilidade térmica foi o de Aline S. Ela começou seu relacionamento com Tiago R. no verão, se apaixonou – para descobrir somente em Julho que ele era um terrível ladrão de cobertores. Foram dois meses de nariz escorrendo.

 

Claro que todos estes problemas são fáceis de evitar: só dormir em camas separadas. Mas aí é aquela coisa: começa em camas diferentes, depois vai pra quartos diferentes, casas diferentes, e quando se percebe, o casal só conversa através de advogados diferentes. Já vi acontecer. Para estes, melhor dormir mal junto do que superbem em camas separadas.

 

Por exemplo: Paula Z. e Mauro P. tinham profissões e horários muito distintos. Eram praticamente uma música do Chico Buarque: ele era funcionário público, ela dançarina (quando um começa a dormir, o outro termina). Deu em divórcio. Estar junto na cama é absolutamente necessário para várias interações próprias do casamento. Como o sexo – pra citar aleatoriamente uma, assim, de prima.