Não sei se vocês viram, mas na semana passada uma modelo australiana postou uma selfie de biquíni. Nada demais, não fosse a revista Marie Claire chegar depois dizendo que esta moça, Robyn Lawley, era plus size. Ou seja: gordinha. Modelo de propaganda de hidratante pra axila.

 

Todo mundo em seguida saiu discutindo as (poucas) banhas dela. Dizendo que ela não era gordinha, não. Concordo: ela está a quilos-luz do conceito mais aceito de plus size – mas vamos reconhecer que o sorriso dela é de gorducha, sim. Não sei quanto se precisa, no mundo fashion,  para ser plus size (imagino que meio quilo acima do peso baste) – mas a felicidade da moça é a de quem come pão com vinagrete no churrasco. Ali se vê satisfação, algo impensável para pessoas acostumadas a quinoa e barra de cereal. Aquele sorriso tem o borogodó que encanta.

 

Aquele sorriso é de Gordelícia.

 

Lá onde eu moro, plus size tem esse nome: Gordelícia. Pode ser a variante Gordinha-Esquema, muito aceita também. Que é aquela mulher uns sete quilos acima do que manda a ONU – mas que traz na bagagem personalidade, opinião e joie de vivre.

 

(A Leitora Encanada pode achar que Gordelícia é ofensa. Pelo contrário: trata-se de elogio e, mais que isso, desejo de consumo. Vai por mim.).

 

Porque a Gordelícia tem beleza. Tem substância – e não é só na cintura. Visita museus e depois discute o que viu na cafeteria, comendo um petit-gateau. Manda a academia do dia seguinte pro inferno se a mesa do bar está bem formada e o assunto rende. Gosta de doces e livros. E como é bem preparada, exige desempenho físico e cultural do adversário. A Gordelícia não cai em qualquer conversa e – dizem – é excelente no sexo porque nunca leu Freud. Entre a psicologia e o pudim, o pudim ganha fácil. Algumas sabem inclusive contar piada, enquanto as Magrelas param no meio da narrativa, perguntando, aflitas: “Gente, como é que terminava mesmo ?”

 

Gordelícias são companheiras. Bebem junto com você, nas datas especiais. Champagne nas vitórias, cachaça nas derrotas. É a escolha perfeita para quem quer fugir do roteiro turístico da praia do Pepê, da ditadura do rosto-peito-bunda.

 

Mas o que caracteriza a Gordelícia é mesmo o humor, é o doping químico do Toblerone ao invés do desespero do alface. É tanta alegria que contamina feito bocejo. E se tal felicidade é contagiante, pronto: eu quero estar por perto. Eu e muita gente. A vida é cheia de conta pra pagar, na TV a cabo só passam as mesmas coisas e este ano ainda tem eleição. Se o sujeito procura alívio, se procura algo a mais que o fascismo da beleza, se percebe que a alegria dos outros ajuda a encarar o trânsito e os sete-a-um-da-vida, as Gordelícias são excelente opção. Com esse nome ou sua variação século 21 – a mulher plus size.

 

Homens gostam de Gordelícias. Elas contêm mais mulher.

 

Em tempo: a tal selfie da Robyn é essa aqui, ó: http://blogs.estadao.com.br/lindeza/2014/07/23/modelo-reacende-debate-sobre-o-plus-size/