Vivi Cristina tem um metro e setenta e muito, anda de moto e, se tivesse Barcelona como sobrenome, seria um filme do Woody Allen. Inclusive não fica nada a dever para Penélope Cruz. Então, imaginem minha paúra (tenho medo de mulher) quando ela resolveu parar na minha frente, chacoalhando um papel na mão. O que significa isso? – perguntou, batendo o pezinho. Reagi como todo homem, na mesma situação: tentei adivinhar onde tinha errado. Teria sido algum email constrangedor? Falei o que não devia nas mídias sociais? Passei os olhos no papel. Entendi o horror: era um artigo afirmando que os homens não gostam de mulheres inteligentes. Juro. E o texto ainda relacionava pesquisas de institutos famosos (FGV, IBGE, BBC de Londres) dando suporte à teoria. Pelos números, quanto mais instrução uma mulher tem, mais solitária ela fica.

 

Li o texto com cuidado. Dados e porcentagens. Inclusive um termo novo para mim: “sapiossexualidade”. Não, não é amor entre sapos. Vem de Sapiens, de ter um cérebro pensante. É quando você se apaixona por uma pessoa porque ela é inteligente. Comecei a falar do assunto apelando para os gregos, para impressionar: sapiossexualidade, que parece ser moda (outra), é um termo mais antigo que o próprio flerte. Sócrates já falava de amor pelas ideias em 400 a.C. Então, por enquanto, nada de novo no front da Guerra dos Sexos. Vivi Cristina, sabedora da minha habilidade em enrolar, cortou o papo furado: é verdade, Lusa? – perguntou, pulsando as têmporas. Vocês preferem as burras?

 

Não, Vivi, a gente não prefere as burras.

 

O importante é o seguinte: noves fora, ser burra ou inteligente não é nota de corte. O que importa é ser legal – é aí que temos a diferença, a questão importante nessa discussão. Porque a inteligente é mais divertida. O convívio é bem mais interessante com uma mulher preparada, rende mais conversa. Também é mais complicado, vamos reconhecer. Porque desafia, provoca a gente, trazendo à tona o suprassumo masculino – cultura geral, gentileza, dedicação, fidelidade. Elas não caem em qualquer conversa. Já com a mulher limitada é mais cansativo, sabe? Ela não entende piada, peca no português (mas arrebenta nos emoticons), só quer ver filme do Adam Sandler. Aí o problema não é ser burra. É ser monótona.

 

A mulher pode ser rica ou pobre, ruiva falsa ou morena legítima, gorda ou magra. Pode ser tradutora de Shakespeare ou versada em Compadre Washington. Pode fazer questão de mostrar que é sábia ou guardar a erudição para si mesma. Pode preferir Miami por causa das compras ou San Francisco pelo Irish Coffee. O que importa é que ela seja legal. Simples assim. Ah, mas e esse dado, dizendo que mulher instruída fica mais sozinha? – perguntou Vivi, já quase calma. Aí a culpa não é dela, Vivi: os homens é que andam bem pouco interessantes – e ela prefere ficar só a estar mal acompanhada. Decisão inteligente, aliás. Más companhias enchem mesmo.

 

Aí o horizonte clareou, os trovões cessaram e Vivi Cristina (Barcelona) finalmente sorriu. Ah, bom – ela suavizou. Preferir mulher burra é, em si, uma burrice – completou. Em seguida, rodopiou vaporosamente e voltou para sua própria mesa, amassando o artigo e jogando o papel feito bola de basquete bem dentro da cesta de lixo. Chuá.