Gabriel Medina, brasileiro, tem vinte e um anos e ganhou o mundial de surf. É bom moço, sarado, religioso; viaja pras competições com a família e nunca foi visto no edredon do BBB. Imagina o que tem de mulher atrás do cara. Vinte e um anos, só. Elas vão fazer sushi dele !

 

Porque amor é perigoso, como o próprio mar. Não dá pra encarar assim, na inocência. Os dois são letais, sendo que o amor é pior porque destrói lentamente. Deixa eu explicar como é, então. Não entendo muito do assunto, mas escuto Stones.

 

Vamos falar de ondas, pra ficar na mesma praia do Gabriel. Pra pegar as melhores, as boas, sujeito tem que remar, ir até o fundo. Tem que passar pela espuma, esquecer a dor que aparece e insistir contra a corrente – pra depois se esbaldar nos tubos, nas curvas, nas acrobacias. As melhores mulheres também são assim. Exigem um esforço inicial; são difíceis e afogam.

 

De cara, o gênio dela pode ser um problema. Quantas mulheres são o Cão do Segundo Livro – mas depois do susto são lindas e carinhosas ? Ela pode ter ciúme doentio, bipolaridade, morar longe; pode ter amigos cheios de intimidade, mãe maledicente, ex-namorado influente. Pode detestar futebol, odiar churrasco e não rachar conta. Pode até ser a reencarnação de Lúcifer, a nova aparição do Coisa-Ruim – mas superado o cheiro de enxofre, o ex, os amigos, a mãe, o humor, a corrente contrária, pronto: temos a glória, o sexo, a massagem no pé. O orgulho de andar de mão dada no Shopping Iguatemi. Nas palavras de Franz Ferdinand: “outside avaricide, but inside love (por fora veneno, mas por dentro amor)”.

 

(A mulher difícil eventualmente pode até ter emprego melhor que o do macho-alfa, o que atrapalha muita gente. Tem homem que encana com essas coisas. Não será nunca o caso do Gabriel porque campeão de surf é um negócio imbatível; nem aquela médica bonita do Chelsea  -um time de futebol inglês – tem trabalho melhor que o dele).

 

Mas, voltando: mulheres e ondas perfeitas valem a pena o esforço: são vagalhões de adrenalina, lindos, que você vai descendo com o vento na cara e um arrepio no rego. Pedem amigo por perto: alguém precisa comprovar que você surfou uma ou beijou a outra – testemunhas de feito glorioso e suado. Você até pode levar um tombo por causa delas, mas o que é um caldo, uma broxada quando se está no Havaí?

 

Alguns idiotas da objetividade dirão que isso pode matar. Pode mesmo, verdade, já falamos disso. Mulheres e ondas podem asfixiar. E aí a opção pros medrosos é ficar no raso, ué. Passar uma vida inteira sem acreditar no complicado é um jeito de viver – um modo mais simplezinho e borocoxô, miado e sem graça, mas tem quem goste.

 

Para essas pessoas que sempre dizem cuidado, respondo com Guimarães Rosa: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois inquieta. O que ela quer da gente é coragem”. É um trecho super conhecido do Grande Sertão: Veredas. Livro bom pra ler embaixo do guarda-sol, enquanto sujeito arruma coragem pra passar a rebentação e ser feliz.