A primeira noite a dois é um rito de passagem, como se formar na escola, casar, separar (e até a morrer, coisa que não pretendo). É quando a gente muda de patamar: saímos da posição de simples contato social para uma intimidade profunda. E não tem volta; a outra pessoa agora sabe seus predicados e suas taras mais recônditas. A primeira noite é muita responsabilidade. É muita pressão.

 

Por isso que transar logo no primeiro encontro traz questões. Teoricamente, é melhor o casal se conhecer direito antes de revelar a cicatriz da apendicite, a tatuagem desbotada de beija-flor na virilha ou o fetiche por banana morna. Sem contar que a moça – sobretudo a moça – tem receio de ficar mal-afamada. Entregar seus encantos, assim, de cara? Tem que fazer um certo doce, senão a plebe ignara cai matando. Verdade, isso é antigo; hoje em dia as pessoas querem mais saber de felicidade. Mas, mesmo em 2015, a primeira intimidade logo após o primeiro jantar rende suas fofocas.

 

Se o par preferir se guardar pro – vá lá – terceiro encontro, ainda assim é muito tenso. Surgirão avaliações. Não basta ser simpático, culto e saber usar a faca pra peixe. Precisa ser bom no vuco-vuco também. E não me refiro a desempenho; isso é bem controlável hoje. Tem Viagras e Catuabas para evitar o pior. Estou falando da preparação para evento tão importante. Depilar partes, comprar cueca nova, evitar comer batata-doce, essas coisas práticas. Tem gente que gosta que seja especial – e marca viagem, reserva pousada. Sempre foi algo solene. O casal se conhece tal qual Adão e Eva. Tem fascínio nessa descoberta, manja?

 

Então: a primeira noite não é mais assim, tão rica. Porque as pessoas estão mandando nudes.

 

Me explico: Dama e Vagabundo se conhecem, se beijam, continuam o teretetê no zapzap e pronto: a pessoa (menino e menina) manda a primeira foto dela mesma pelada. Aí, vem a segunda. A terceira, a quarta. Enfim: vem o Curso de Anatomia da USP somado ao Seminário de Photoshop da ESPM. Antes da hora agá. Não vou dizer que é feio, que não pode. Soa careta e não quero ditar regra. O mundo virou isso, é o que temos. Mas um pouco da curiosidade morre. É como se ambos já tivessem escolhido o prato, só esperando para ver se a realidade corresponde à foto do menú. Muitas vezes não é a mesma coisa –  fenômeno conhecido como Síndrome do Big Mac. Como as pessoas só são sempre lindas no Instagram, o que é pra ser sensacional acaba ficando frustrante.

 

É o fim do segredo de alcova: o casal já se viu pelado, em vários ângulos. Avaliou as fotos com calma, aumentando onde interessa e diminuindo onde é torto. Ficaria faltando só conferir o desempenho – que pode ser controlado quimicamente. Cadê a graça, a novidade? Cadê as butterflies in the stomach?

 

Definitivamente, a importância da primeira transa está esvaziada. Ao invés da surpresa, temos a modernidade. A tecnologia. Mandar nudes é como desbloquear uma fase do PlayStation – a primeira transa. Com não há tanto mistério, como há menos a descobrir, perigas ser game over. Logo de cara, por falta de charme.