Minha mãe me liga: vovô deixou um terreno pra gente.

 

Daí você me pergunta: em Maresias ? Em Itacaré ? No Vale do Loire ? Não: num cemitério lá na Zona Sul. Fui pesquisar quanto valia o jazigo. Liguei no escritório do lugar. A cova dava pra comprar um carro importado zero. Zero ! Embora seja meio úmido e não bata muito sol na área interna, o condomínio é nobre e todo gramado. Decoração sustentável e respeitosa. E, note bem: vizinhança diferenciada, bastante famoso morando ali. Tem seu valor. Decidi que ia aproveitar aquele imóvel na alta temporada. Ou seja: enquanto estivesse vivo. Vou vender porteira fechada, com tudo dentro. Azar se a Tia Ercília ainda está lá.  Saio já fazendo contatos, imaginando quem poderia se interessar.

 

Aí minha mãe liga de novo. Não é uma cova. São trinta e cinco. Aparentemente, meu avô queria fazer a festa dos arqueólogos do futuro. Aquele valor todo é para trinta e cinco moradores. O que eu faço com trinta e cinco covas ? Abro uma catacumba ? Essas coisas dão certo em Roma – não aqui. Vendo para aqueles países lá no deserto, onde o pau come feio ? Esse lado comercial não é meu forte, sou escritor. Mas não importa: a determinação é grande.

 

O lugar em si, como moradia, não me interessa. O plano é ser cremado. A família se manifesta: onde vamos lhe visitar ? Isso não é problema meu. Não vou estar presente na visita; pode marcar onde quiser que não vou mesmo. Na Flórida, muita gente pede pra ter as cinzas espalhadas num cemitério de corais. Coisa de pescador; na Flórida tem muito. Usando essa lógica, vou pedir para me espalharem numa caixa de biscoito recheado. Pesquiso o assunto: há alternativas para a vida eterna. Descobriram um jeito de fazer esterco a partir de humanos. Colocam uns produtos químicos nas cinzas da pessoa, e pronto: esterco. Não acho grande avanço científico. Tem gente que já é desse jeito em vida; qual o progresso, então ? Acalmo todo mundo: hoje em dia tem uns vasinhos feitos com casca de coco. A cinza vai pra lá, e o vaso germina em outra vida. Serei eu, de novo, em busca do sol. Podem me visitar assim.

 

Agora, antes de ser cremado, vou é torrar essa herança. Ah, vou mesmo. Vou pular de bungee jump lá na Nova Zelândia. É o Corcovado dos bungee jumps. Sujeito chacoalha no ar, em desespero, até o elástico prender e começar o ricocheteio. Se eu sobreviver ao provável enfarte, vou alugar um veleiro de fibra de duralumínio e contratar o Amyr Klink. Vou dar a volta no Globo pelo lado Antártico, o mais complicado. Aí vou pra Oktoberfest lá na Alemanha. Com aquele tíquete que tem na Disney pra escapar das filas.

 

Vou aprender a esquiar. Na água, na neve e na lava. Vou visitar aquele vulcão de nome impenetrável que tem na Islândia. Aquele que, quando entra em erupção, interrompe o tráfego aéreo daqui até Júpiter. Do vulcão vou pro Iraque, ouvir Rolling Stones no meio da praça.  Dali volto pro frio: serei o primeiro a escalar o Everest de sandália havaiana. São vários planos.

 

Então, resumindo, se algum dia vocês me pegarem nessa posição inegociável de ir conversar com Jimi Hendrix, podem ter certeza: a saída vai ter sido em grande estilo. Vou gastar mesmo. Vou guardar só duas moedinhas – pro barqueiro, né ? Vai que.

 

O imóvel tem trinta e cinco cômodos. Não é em Roma.