Deixa eu te contar como tudo começou. Pesquisei o assunto e tudo.

 

Teve essa explosão – chamaram de Big Bang –  e o Universo saiu pra tudo quanto é lado. Alguns desses cacos se juntaram, esfriaram e temos aqui o nosso planeta. Mas ainda era um lugar duro de viver. Só tinha vulcão e caía asteroide o tempo todo. Demorou bilhões de anos pra Terra ficar habitável.  Então, para comemorar ter sobrevivido, Ela criou as flores – os fogos de artifício da natureza.

 

No começo, ninguém sabia o que fazer com as flores, porque, enfim, a gente nem sabia falar direito. Tinha Neandertal achando que era de comer. Só na idade antiga que começamos a entender a ideia toda. Fizeram os Jardins Suspensos da Babilônia. Depois, os chineses e os egípcios – essas civilizações que aparecem no Discovery – passaram a atribuir uma flor para cada deus. Os romanos inclusive faziam arranjos para pôr na cabeça das vestais, as freiras daquele tempo. Nas casas deles, jardim era sinal de prestígio – igual o botão de curtir no Facebook. Surgiram jardins meticulosos em volta de castelos, tudo para deixar o mundo bonito como as flores… e como você (quando está de bom humor).

 

Aí, finalmente, na era Vitoriana, idos de 1830, as flores viraram buquês. Era uma época muito cheia de fru-fru, e não ficava bem para um homem se declarar escandalosamente. A saída era mandar flores. Dava supercerto. Imagine a moça, peruca, espartilho, abrindo a porta do chatô e dando de cara com um buquê vitoriano ? Não tinha quem resistisse.

 

Considere o efeito que as flores têm. Parece que o Pato Donald está falando eu te amo na sua orelha. Flores iluminam, perfumam a casa, deixam a sala bonita, são anti-depressivas. Inclusive tem uma pesquisa da Rutgers University (procurem no Google) relacionando humor e flores. Em resumo: pessoas que estão chateadas se sentem imediatamente melhor quando recebem rosas vermelhas, por exemplo. Coisa científica, embasada, não estou chutando história aqui pra impressionar você.

 

Te conto tudo isso, gata, porque soube que você atirou pela janela as flores que te mandei. Passei no seu prédio para pegar minhas cuecas e o porteiro me contou, de olhos arregalados. Nem quero argumentar que flores são um troço caro. Porque se é pra te deixar feliz, todo dinheiro é pouco.

 

O problema é outro.

 

É o desrespeito a bilhões de anos de evolução. Não só da natureza, mas do próprio comportamento humano. Flores apagam erros, pedem desculpas, sugerem que se busque uma vida melhor. Nem todo mundo se comunica como você; pode ser a maneira que uma pessoa tem para dizer coisas. Flor ajuda os tímidos a falarem, por exemplo.

 

Muito feio isso que você fez. Minhas flores assim, no meio da sarjeta. Tinha criança vendo. E agora não há outra alternativa a não ser ir pro Programa do Ratinho. Eu já avisei a produção, eles estão interessados na história. Ficaram estarrecidos. Uma estagiária até chorou. Vamos discutir isso em público. Bom avisar que eu estou preparado; venha com bons argumentos. Ódio me parece muito pouco. E é um tópico que se esgota em trinta segundos.