Depois de alguns anos dando expediente diariamente em uma agência de propaganda, a vida me levou ao home office. Pelo menos por uns meses eu ia só escrever roteiros de longa-metragem. Comprei um computador novo, canetinhas de ponta fina (adoro) e uma cortina boa para o escritório de casa. Se eu tinha parido oito filmes dividindo meu tempo entre cinema e publicidade, rapaz, imagina o que eu faria agora, dedicado só à sétima arte?

 

O primeiro obstáculo, pelo que me contavam, seria a disciplina. Você está na sua casa, percebe? Quem manda ali é você. Se a pessoa resolve passar a manhã fazendo bolha de cuspe diante do Facebook, ninguém olha feio. Pois bem: no teste da disciplina eu passei. Tenho um monte de prazos pendurados na minha cacunda. Tenho que sentar e fazer algo minimamente aproveitável, senão fico sem receber. O que incomodou, isso sim, foi a falta de gente. Quando estou escrevendo, sou capaz de passar semanas enfurnado em casa, de moletom sem cueca e camisa da Festa do Peão de Barretos de 2003. Só via uma bunda quando ia pagar conta no banco. Dava pra pagar pela internet, mas eu ia no banco. É bom porque daí sou obrigado a pôr cueca. É ruim porque há pelo menos um milhão de lugares melhores para se ver uma bunda.

 

Rotina, portanto, não foi problema. Mas tinham outras coisas. Descobri que tem pernilongo embaixo da mesa onde eu trabalho. Mas, tipo, esquadrilhas de pernilongos. Minha canela ficou parecendo Berlim no fim da guerra. Descobri que, se você está na firma, ver o torneio de Wimbledon escondido é lutar contra o sistema. Se está trabalhando em casa, é render-se à preguiça. Fui ao cartório, fiquei na fila – e descobri também que morro de saudades da Paulinha, da agência. Ela resolvia todas essas questões de cartórios e correios sorrindo e ainda me trazia canetinha de ponta fina (adoro). Em breve, vou descobrir que o ar condicionado de lá faz muita falta também.

 

Os dias são muito mais longos. Às vezes, eu começo a escrever antes das oito da manhã. Sabe quando eu começaria a trabalhar às oito, na agência? Jamé. Eu chegaria às dez e ficaria enrolando mais meia hora, assoprando o cafezinho até gelar, comentando do campeonato brasileiro. O fim do dia é igualmente diferente. Se você trabalha no esquema home office, não volta pra casa depois do trabalho – porque já está lá. Um uísque no cair da noite funciona como rito de chegada, mas engorda. O bom é que você pode ir na academia no meio da tarde. Não tem gente, não tem bundas – e portanto não tem graça. Mas é melhor que ir ao banco.

 

Desenvolvi alguns caprichos, porque posso. Se o trabalho rende bem de segunda a quinta, na sexta levo vida de deputado. Vou ao cinema na sessão das duas. Almoço com os amigos e fico com sono. Vou nas exposições da Japan House sem medo de ficar pra fora. As prioridades agora são os meus problemas, não os problemas dos outros. Ah, o cliente precisa da apresentação? Azar dele. Ah, o cliente está desconfortável com essa questão? Que procure conforto em uma rede no quintal – como eu. Não tenho issues dos outros na minha vida.

 

De vez em quando, saio de casa e escrevo em cafeterias. Conheço todos os atendentes e todos os pães de queijo da Vila Madalena. E não atendo telefone quando tem jogo da Champions League. Quando tem jogo do São Paulo eu atendo – já perdi a esperança.