A gente observa o céu desde antes do Big Bang. E sempre procurando sentido naquilo tudo – nos anéis de Saturno, nas nebulosas, nos cometas, nos incas venusianos. Tem muita gente boa que acredita que a maneira como os astros dançam lá em cima explica nossa vida aqui embaixo. E não estou falando de pessoas de sotaque portenho e turbante azul. Necas: estou falando de cientistas mesmo. Gente como Stephen Hawking, o maior físico vivo – um sujeito fissurado por buracos negros.

 

Segundo o que todo mundo achava, os buracos negros eram regiões do espaço com atração gravitacional tão grande, mas tão grande, que nada escaparia de lá. Nem a luz. É como se a matéria, qualquer matéria, fosse um cachaceiro passando diante do bar: a atração seria irresistível, puxando o pinguço inapelavelmente lá para dentro. Para sempre.

 

Até que a Nasa fotografou algo escapando de dentro de um buraco negro. Foi o máximo. Cientistas em frenesi. Stephen, então, explicou a descoberta comparando buracos negros com a depressão: “coisas podem escapar dos buracos negros. Então se você se sente como se estivesse em um deles, não desista. Sempre existe uma forma de sair”.

 

Eu achei lindo. A física e a matemática flertam muito com a poesia. É um pensamento muito abstrato, que encontra fácil correspondência nas relações humanas, no astral e em outros estados metafísicos. Vejam, por exemplo, os cometas. Eles são como as paixões arrebatadoras: aparecem, espetaculares, a gente fica babando – e aí eles somem por 76 anos (ou mais). Com uma diferença: cometas passam deixando para trás milhares de partículas – enquanto muitas das nossas paixões desaparecem sem nenhum rastro. Cometas também têm nome: Halley, Shoemaker Levy-9, etc. Tem gente que aparece na nossa frente e depois sequer nos lembramos do apelido. Cometas podem ser frustrantes.

 

Asteroides são ainda piores que os cometas. Porque o cometa some sem causar estrago. Asteroides, não. Eles são amores mal resolvidos. A gente acha que aquilo é estrela, olha que maravilha – e de repente, quando eles chegam mais perto, cabum: se espatifam na nossa frente, queimando grama e exterminando a vida. Sabe aquela pessoa que veio do nada, você foi com tudo e no fim só sobrou ódio, desilusão e enxofre? Então: gente-asteroide.

 

Ah, mas o cronista diz que o céu é formoso, mas só fala de frustração e destruição? Calma: tem a Terra. Que beleza. O amor da nossa vida. Onde a gente dorme e acorda. Então, tem de cuidar. Manja o aquecimento global? Falta de carinho, claro. Olha no que deu. A Terra é deliciosa, aconchegante e, quando chove, vem aquele cheirinho de infância. É perfeita, tudo certo – mas em frente tem a mulher do vizinho: Marte. Ah, Marte deve ser superlegal. E diferente, né? Todo dia a mesma coisa – isso cansa. Aí a gente vai pra lá… e xongas. Só pedra e areia vermelha. Conclusão? Melhor cuidar bem do nosso amor. A gente não vai encontrar outro igual. Pelo menos não vimos nada parecido pela galáxia (ainda).

 

Por último, a Lua. Aí é simples, não tem grandes cientistas nem telescópios: a Lua é boemia, é sedução, é encantamento. A Lua é a nossa parceira quando a gente quer fazer serenata.