Entendam: sou careca. Pra mim, o cabelo tem basicamente quatro tons: moreno, louro, ruivo e transparente. Grisalho não existe, porque os fios que tenho não sobreviverão até lá. Inexperiente, me surpreendi quando Teresa disse que a cor do seu cabelo era castanho-cinza. Como assim? – arregalei. Seu cabelo não é claro? Cabelo claro não é sempre louro?

 

Teresa era o bem o contrário de cinza: alegre, ria com qualquer coisa que eu dizia. Abria bem a boca pra exibir a campainha lá dentro, balançando às gargalhadas. Não sei se foi a questão inicial do castanho-cinza, ou se foi vontade mesmo de mudar (sempre bom), mas no encontro seguinte Teresa veio loura. Dessa vez tenho certeza. Perguntei antes: isso é louro ? Ela confirmou: louro.

 

Teresa Loura era diferente da Teresa Castanho-Cinza. Mais ambiciosa, determinada e – principalmente – metida. Devia ser o excesso de luzes. Era bom pra mim, o acompanhante: quem é aquele calvo-nublado com a loura-solar? Louras têm isso, de aparentarem ser carnívoras (com todo respeito). Teresa só decidiu mudar novamente o cabelo depois, por causa de uma pesquisa afirmando que louras ganhavam menos. Não adiantou dizer que pesquisa é um troço idiota.

 

Veio a Teresa Ruiva. Ah, essa me agradava de monte. Tinha um astral de bruxa que incendiava nossa relação. Ela cozinhava sopa, eu tomava como se fosse a poção mágica do Asterix. E o sexo, então? De vermelho, Teresa era a própria demônia. Pomba-Gira turbo. Mas na lida diária, rapaz, dava muita briga. Ôpa, se dava. Teresa Ruiva não levava desaforo pra casa. Até sermão na missa era ultraje. Depois de arrumar briga no trânsito, no feice, no trabalho e finalmente no Vaticano, ela achou por bem mudar outra vez. Antes de ser deportada.

 

Aí ela apareceu no tom morena estonteante, um adjetivo que não cabe em qualquer coloração. Mudou de novo o jeito de ser: Teresa tornou-se mais contida e profissional. Comprou terninhos pretos pra trabalhar. Ficou menos temperamental, mais equilibrada. Eu sentia falta daquela explosão carmim. Não tinha graça discutir com a Teresa Morena. Muito madura pra mim.

 

Duas semanas depois, sem aviso prévio, Teresa surgiu com o cabelo prateado. Parecia uma Joana D’Arc fashion. Super moderna. Gente que trabalha no Twitter pinta o cabelo de prateado. Só que prateado parece branco, e as pessoas começaram a chutar a idade dela pra cima. Foi uma fase que, por causa dessa questão mal-resolvida, passou rápido.

 

Teresa pensou em azul e perguntou minha opinião. Eu arrisquei usar o humor. Brinquei: fica mais fácil pra te acharem numa passeata. Teresa daí considerou tingir de laranja. Sinalizei que o apelido dela ia virar Fanta. Aí ela se irritou e ameaçou raspar o cabelo. Respondi: pra quê, não basta eu? Nossa senhora, ela reagiu como se ainda fosse ainda ruiva. Voou coisa.

 

Tem gente que não aprende com as brigas, mas eu sim. O amor é um troço poderoso – mas nem ele resiste a uma crítica capilar. Cor, corte, cabelo branco aparecendo – vamos evitar qualquer julgamento. Ainda mais se você for careca, sem intimidade com o assunto. Com relação à cabelo, eu agora opto pelo básico: perceber que ela cortou. Já está bom.