Gente, será que essa é a hora certa para lançar um filme de amor ? – pergunta a diretora de cinema Vera Egito, roendo unhas, a respeito da chegada do seu filme Amores Urbanos. A preocupação se justifica: no meio desse furdunço político do país, neste momento que se reescreve com adrenalina a história do Brasil, haverá espaço para o amor? Dá para interromper a tourada para servir um acepipe?

 

Noto isso aqui no Estadão também. Os textos que escrevo são basicamente uma mistura de xodó, mentiras e groselha vitaminada Milani (iahuuu). E parece que o povo não está muito aí pro assunto. Entre um parágrafo e outro de arrebatamento, de tesão, de beijo na boca, nesses microssegundos entre uma linha e outra, aparecem vinte e dois escândalos, quatro delações, oito prisões coercitivas, dois vazamentos de áudio e 11 juízes do Supremo. Não há como competir com a política usando só ternura. É como pôr o Al Capone e seu bando para brigar contra a Adele e sua banda.

 

A galera está numas de ódio. Então, nós – que vivemos de paixão e vida – vamos fazer o quê? Desistir? Vamos deixar tudo degringolar para a miséria humana? Poderia ser um bom plano, se fosse resolver. Mas não está adiantando, vamos reconhecer. E outra: o ódio sempre existiu em resposta ao amor. Um não vive sem o outro. Os dois são Tonico e Tinoco, Vítor e Leo, Daft Punk. A Vera tem que fazer  filme de amor justamente porque existe fúria de monte. Senão é o fim da civilização – coisa que já vem acontecendo nas redes sociais.

 

Porque é nelas – as redes – que a gente encontra mais os amigos, hoje. Não é no bar, onde dá pra argumentar, sorrir, dar o peso correto às palavras, pedir um Ovomaltine pra aliviar tensões. Não, senhor: estamos diante da tela redutora do celular. Aí fica fácil deixar de ser amigo. Só um clique. Sem memórias afetivas, sem o futebol da hora do lanche, sem o toque na pele, sem o meio-tom.

 

Meu amigo Paulão sugere outra coisa. Ele prega a prática da “não-reação”. Ou seja, parar dois segundos antes de sair fazendo caca. Veja bem, não é para engolir sapo, fingir que não está vendo. Necas. Gente borocoxô não chega a lugar nenhum. O que o Paulão defende é que a pessoa pense antes de qualquer reação, antes de alimentar o ódio. E que, a partir dessa paradinha consciente, se escolha com mais equilíbrio a resposta. Todo mundo tem lá dentro ódio e amor – mas se você pudesse escolher um, só um, qual seria? Se você fosse Gandhi, que curtia a prática, o que você faria?

 

Eu, a Vera, o Paulão e a cantora Marina Lima escolhemos o amor. De livre e espontânea vontade, no pleno gozo das faculdades mentais. Não é alienação nossa, pelo contrário. É resistência. O amor constrói, enquanto o ódio só quer saber de penúria e escombros. E você, caro leitor, charmosa leitora, pode nos acompanhar nessa revolução. Venha; traga sua afeição. O momento pede. Nas palavras da Marina Lima: você me abre seus braços e a gente faz um país.