É a moça extrovertida encantada com o rapaz tímido, o carnívoro apaixonado pela vegana, a jornalista em affair com o deputado, e por aí vai. Os opostos se atraem, dizem. Não faz sentido, mas estamos falando de amor. Ele não apresenta razão. É poesia, não algaritmo.

 

Nessa de querer o oposto, surge para negar a quase-lei o Homem Sensível. Não estamos falando de opostos aqui: o Homem Sensível está bem longe de ser o contrário da mulher. Emotivo, humanista, quase frágil, ele tem personalidade parecida com a das próprias moças – historicamente mais doces que os homens. Claro, estou partindo do pressuposto que mulheres ainda são assim; espero que os tempos atuais não tenham estragado completamente a ternura feminina.

 

O Homem Sensível vai em peça de teatro, escuta com atenção as mazelas da vida profissional dela, faz carinho em público. Fica na fila, calorão na moleira, para ver a Mostra do Truffaut. Sujeito maduro, sabe? Equilibrado e meigo. Num mundo lotado de trogloditas, o Homem Sensível é um alento, um oásis – um chocolate que você achava que já tinha acabado, mas tem mais na gaveta. Tem tanta sensibilidade que nunca paga conta sozinho, para não ferir os brios da companheira. Sim, verdade: tem mulher que prefere o Homem-Cavalo ao Homem Sensível. Se sente protegida assim, com alguém mais boçal. Fazer o quê? Amor não tem coerência. Amor é Rodrigueano, não Cartesiano.

 

Só que, pasme, o macho também tem sua igual, versão parecida com ele próprio. A correspondente, para meninos, do Homem Sensível. É a Mulher Maloqueira. Não apresenta tanto encanto ao primeiro contato. Ah, inocente rapaz, se você tivesse notado as cicatrizes no joelho dela, saberia: é Mulher Maloqueira. É joelho que já caiu de árvore, que já pulou muro, que já jogou bola com os primos mais velhos. Provavelmente só tem irmãos, e aprendeu a dar chave de braço antes de andar. É irresistível, a Mulher Maloqueira.

 

Ela é a primeira a entrar na água (gelada!) pra chegar na cachoeira. Quando tem churrasco, nem toca na salada. Nunca toma saquêrinha de lichia. Se aparece periguete dando uma de urubu, ela sai no tapa – para depois se arrepender, dizendo que tem que ser mais feminina. É sincera e pragmática. Não fica de chororô. E não precisa de proteção. Pelo contrário: precisa de alguém que proteja os outros dela.

 

Sabe manter a elegância. Não é que nem a Mulher Barraqueira, outro tipo de gente. Quando tem que comer quinoa, a Maloca encara numa boa – levantando o dedinho que nem os ingleses fazem quando vão tomar chá. Seu principal segredo é a própria personalidade, que esconde em roupas e gestos pensados. Mas convide para um paintball, pra você ver o que acontece. Só uma dica: use capacete.

 

É lindo ver a Mulher Maloqueira namorando o Homem Sensível. Inverte tudo. Ela é um moleque, ele é uma donzela. Ela mete o dedo na cara do desafeto, ele morre de vergonha. Todo mundo conhece um casal assim. Acontece bastante. Realmente, o amor não tem lógica. Não é ciência; é esculhambação mesmo.