Uma das minhas leitoras, Kátia (o nome não é esse),  me escreve arfante, ansiosa e perdigoteira. Sempre foi a melhor aluna; é talentosa, bonita (não que eu me importe com isso) e escreve melhor que Clarice Lispector. Mas tem levado uns olés da vida: perdeu campeonatos, recebeu críticas e não emplacou canções no Globo de Ouro. Pela primeira vez, está em crise. Saiu até do Feice. E agora, como faz ? – me pergunta, esbaforida.

 

Bom, sou brasileiro. De crise eu entendo. Nos últimos vinte anos passamos por, o quê?, vinte crises – interrompidas por esquisitos períodos de bonança? Crise é com a gente. Então, posso responder, enquanto brazuca: calma, Kátia.

 

Só os beócios acham que está tudo sempre bom. Babam bovinamente, na alegria e na tristeza. Não se questionam, se contentam com o pouco que derem. Os inteligentes, os sabidos e os suingados em geral sempre se questionam. Mesmo quando está tudo azul.

 

Pra começar, Kátia aparentemente padece da Síndrome do Moleque Inteligente. Explico: é aquela pessoa que desde a mais suculenta infância passou pela vivência acadêmica sem dificuldades. Notas boas, elogios dos professores, entrou na faculdade sem suar o biquini, conseguiu o primeiro emprego na moleza. Pessoas assim sabem pouco de fracasso – o que é ruim. O ideal é fazer igual à nossa nação, que cresce calejada e acostumada à tempestade. A vida é cheia de topadas de dedinho – e quanto antes você se habituar ao cai-levanta, mais fácil fica.

 

Crises têm seu lado bom. Melhor ainda se provocarem o choro desmedido. Li em algum lugar: lágrimas indicam que o cérebro acalmou. Tem a ver com o hipotálamo – mas não me peça pra explicar direito; minha cultura é a de Big Brother. Tristeza é normal – embora seja melhor a angústia. Segundo Paul Ekman (um psicólogo aí), tristeza paralisa, enquanto a angústia movimenta. Ou seja: o primeiro passo para escalar o fosso é querer sair dele. Tomar providências, mandar currículo, fazer ajuste fiscal. Só reclamar faz de você uma pessoa chata – e ainda em crise. Mas tem que usar a cabeça. Não é pra pular banho achando que está economizando água, como estão fazendo os paulistas (menos eu).

 

Pense, querida leitora. Você tem o necessário pra sair dessa. Aquilo tudo que sempre te fez valiosa: malandragem, jogo de cintura, neurônios e faca no dente. Vaidade também ajuda, porque os espertos não se conformam com o buraco; querem sair dali o mais rápido possível. Já os parvos, não. Acham o fundo do poço suportável porque é fresquinho e quando a pessoa grita “acuda” vem eco.

 

Trazendo da sua vida pessoal novamente para o Brasil, Kátia, esse negócio de gente inteligente versus gente pascácia é mais ou menos como comparar o nosso país com a Coreia do Norte. Aqui, a gente tem de tudo e acha que a coisa está super preta (e está mesmo). Lá na Coreia do Norte não tem democracia, tecnologia, comunicação, dinheiro, comida, liberdade, futebol decente  – mas os caras acham que está tudo joia. Tomam leite de iaque, imagina. Eles não têm luz elétrica, mas fazem bomba atômica – e isso ilustra bem como funciona uma mente limitada. Com todo respeito.

 

Você é igualzinha à nossa nação, Kátia: cheia de recursos naturais e belezas geográficas. No final, você e o Brasil se levantam. Desde a primeira missa que dá certo, não vai ser justamente na sua vez que isso vai mudar. Insista, teime, martele. A gente não desiste nunca.