A mulher balzaquiana original, tal qual descrita pelo Balzac no século 19, tinha trinta anos. É que as pessoas morriam cedo. Não havia antibiótico, anestesia, nutrólogas, UTI – então, qualquer topada de dedinho era fatal. A expectativa de vida era de míseros quarenta e quatro anos.

 

Quarenta e quatro anos, só. Eu, por exemplo, já estaria comendo capim pela raiz. Cate Blanchet, idem. Charlize Theron ainda não – mas ela estaria, tipo, com a canastra na mão. Pra mim, seria uma ótima oportunidade para conhecer as duas, na porta do Céu. Até imagino o encontro: Cate, sua lôka, você também?!

 

Mas o mundo mudou, e agora a expectativa de vida é outra: setenta e três anos (aqui no Brasil). As pessoas fazem pilates, corrida de rua, tomam xenical, evitam o glúten, bebem menos (eu, não) e dormem em tumbas hiperbáricas. Basta andar por Ipanema para ver o resultado de tanta dedicação: são bundas, peitos e coxas que sobrevivem inalterados até alta idade. Por dentro da pessoa, tudo bem também – tripas, pulmões, ossos. No máximo, uma desilusão amorosa na aorta, nada grave. Se fosse para atualizar a balzaquiana, ela teria uns cinquentinha.

 

Então, combinado: viveremos até os setenta e três. E, para 2050, prepare-se: a projeção é que vamos até os cento e vinte (!!!). A velocidade das estradas vai ser igual à sua idade. Que bom; a Terra é um lugar ótimo pra gente ir ficando. Só que a questão é a seguinte: o que faremos até lá? Se vamos existir bastante, é natural considerar que ficaremos na lida por mais tempo. Viver, em si, tem um custo. Assim sendo, diga aí: consegue se imaginar trabalhando nisso que você faz por mais, sei lá, sessenta anos? Você vai ter saco para continuar olhando o osso do corpo, a cárie na boca, a coluna do prédio, a taxa Selic, o Excel, o Photoshop até lá?

 

Porque teremos outras possibilidades. Ofícios que nem foram inventados ainda. O computador pessoal nasceu tem trinta e poucos anos. Não havia japas do TI antes disso. Gosto de citar essa nova profissão que apareceu: cool hunter. Que é a pessoa encarregada de descobrir as coisas legais que estão acontecendo. Eu achava que bastava ir num bar para ver isso, mas não: é trabalho. Cool hunter.

 

Além de saúde e opções, os coroas terão espaço. Os mais novos, que sempre tiraram emprego dos enferrujados, estão numa sinuca de Google: o conhecimento superficial. Sabe aquela pedrinha que você joga no lago de fianca, e ela ricocheteia ao invés de afundar? A geração kkkkk consome conhecimento assim. E escreve pouco (quando escreve, é com os polegares). Senhores de idade que já deveriam estar em Floripa, tomando sol e batida de coco, ainda ocupam postos-chave por falta de gente mordendo o calcanhar.

 

Sim, eu sei. É cedo para pensar no que vamos fazer. Faltam muitos anos ainda. Mas, sinceramente, eu vou me preparar. Abdominais? Botox? Não: vou ler e estudar bastante até lá. Pra me garantir – e pra conhecer a Cate. Não quero me encontrar com a moça diante de São Pedro, e passar a vergonha de ficar sem assunto. Kkkkk.