Acontece com vocês? Comigo, acontece sempre. Em quase todo trabalho que eu pego, a sensação é a mesma: hoje serei desmascarado. A ideia que eu tenho é ruim (na falta de outra vai essa mesma), e daí vai ficar evidente, neste exato trampo, que só enganei todo mundo até agora. Ponto. Fim.

 

É já que pessoas vão perceber que eu sou um hoax, um embuste, um canastrão federado. As pessoas vão apontar pra mim na rua, vão criar hashtags pra louvar a minha intrujice e em breve serei ridicularizado na fila da Caixa Econômica, onde estarei para pedir pão velho e leite de saquinho.

 

Claro que dá sempre para enrolar. Tem sido minha salvação desde as provas de filosofia na USP. Ali desenvolvi um tipo de conversa mole superior que passa fácil por ilustração cultural. Estudei filosofia grega e, no desespero, cito Aristóteles e Platão sem pudor nenhum, para as pessoas acharem que no meio daquele trololó todo tem conhecimento. Cito até se estiver fora de contexto, dane-se. Na verdade, o segredo maior é esse: encaixar Platão no meio de um texto sobre achocolatados em pó. Quem vai me desafiar se estou citando Platão? Então. Normalmente funciona – a não ser que a outra pessoa conheça Platão. Aí lascou-se. A tática não funciona se você encontrar alguém capacitado na sua frente.

 

Por exemplo: na pré-produção do filme “Estômago”, um pouco antes de rodar, eu e o diretor Marcos Jorge marcamos uma conversa com o ator João Miguel. Sentamos num boteco, e o João perguntou como seria o filme. Ele tinha lido o roteiro, tinha adorado – e agora queria saber como a gente ia fazer a coisa toda. Soltei pra ele, todo culto e enrolador: “queremos fazer uma coisa meio Fellini” (outro que funciona tão bem quanto Platão). João olhou pra mim e, com aquela baianidade, devolveu: “mas qual Fellini? O Fellini do Realismo Italiano, ou o do Teatro do Absurdo?”. Oi? Diante da minha evidente incapacidade de responder, mostrei coragem e me comportei como um homem: mudei de assunto.

 

Ali dei um jeito, mas agora não vou conseguir, neste exato trabalho que me pediram. Não dá pra mudar de assunto; a coisa tem prazo. Eu fecho os olhos e imploro a meu cérebro: “me mande algo, maldito!” – mas só vem um desejo inescapável de assistir Seinfeld. Já fiz três lanchinhos, já paguei conta no internet banking, já conferi email, zapzap, mensagem no feice, tudo. Não há mais como postergar. Olho em redor da minha mesa e não há um companheiro de trabalho para me ajudar a livrar a cara. Quando eu estava em uma agência de propaganda, sempre arrumava algum diretor de arte talentoso para me carregar nas costas – mas agora estou sozinho feito o Gnu do Discovery Channel, esperando o bote do coiote. Vão descobrir tudo, tudo, tudo.

 

Podemos tentar usar a saída clássica do piloto da Segunda Guerra Mundial. Que chegava de volta à base com o avião todo cheio de buraco, estrupiado, torto – e dizia que era por causa dos alemães. Se bobear, ganhava até medalha. Vou fazer isso; vou jogar a culpa toda nos outros do mesmo jeito. Se bobear, viro até heroi.