Você, garotão que tanto queria se vingar da ex pegando todas, conta pra gente: conseguiu ? Tirou o atraso de cinco anos de namoro ? Valeu a pena se guardar tanto tempo, pra depois lavar a égua de domingo a cinzas ? Apareceu quantidade suficiente de mulheres pra esquecer a outra lá ?

E você, gatinha normalmente comportada, foi à forra do namorado negligente, adquirindo experiência em outras bocas? Quando ele disse que ia sozinho pra Recife você prometeu se vingar. Aconteceu ?  Tem foto pra postar no Instagram, ou você prefere que ele fique imaginando, a pulga dando festa atrás da orelha ?

O garoto tímido quando sóbrio: aproveitou o beijaço generalizado para acumular milhagem pro resto do ano ?  Se preparou para a seca que sempre vem no dia a dia, crise hídrica na sua horta ? Usou a festa pantagruélica de Momo para fingir-se pegador ?

A romântica solteira tem dois anos: achou a alma-gêmea no bloco ? Guardou seu amor e sua nudez para alguém que surgiu numa carruagem alegórica de ouro, cantando Agostinho da Silva ? Encontrou finalmente o amor da sua vida – ou ficou pro ano que vem ?

Tem também o casalzinho que, finalmente, viajou a dois. Primeira vez. Aconteceu tudo aquilo imaginado quando a pousada foi reservada ? Sexo, jantares, bronzeadores, gargalhadas – ou o feriado serviu para o desencanto geral, para que os dois percebessem que a convivência por mais de duas horas é um troço borocoxô e irritante?

Ou aquele leitor (ou leitora), que já no começo do ano se sente cansado, judiado, sofrido: deu para ficar o tempo todo de barriga pra cima na piscina, pilha de livros de um lado, copo de Aperol no outro ? Carnaval não é só abadá; tem gente que precisa descansar. E aí ? Vai voltar na quinta com o corpo recuperado, dez horas de sono por dia ?

Aquela moça que já aprontou de tudo, mas que este ano resolveu ter distância do samba – e foi velejar em Ilhabela. O trabalhador que esperava que o ócio pudesse clarear o rumo da própria carreira – e leu Eduardo Gianetti. O maratonista que ia tirar os cinco dias para tratar do joelho. O budista que ia fazer retiro na Chapada. O sujeito que precisava economizar e ficou vendo Netflix.

A exposição do Ron Mueck que faltava visitar. O filme que tinha que ser visto antes do Oscar. O trabalho que não fica pronto. O cachorro que nunca passeia. A receita que nunca vira prato feito. Os pais que nunca mais encontrou. O carnaval serviu pra tudo que você queria – folgas, repensamentos, alegrias – ou ficou guardado pro próximo?