Acho que já existem indícios suficientes para assegurar que, sim, sou adulto. Filhos, dívidas, responsabilidades, dores nas costas, dívidas, calvície evidente, cabelos brancos (no cavanhaque) e, claro, dívidas. Mas até outro dia eu não tinha tanta certeza disso. Durante muito tempo me imaginei habitar um mezanino entre a adolescência tardia e a idade adulta prematura, e neste nível intermediário eu flanava charmoso e bem conservado. Hoje, dou a mão à palmatória: sou adulto. Daqui só saio pra terceira idade.

 

Já o pessoal que hoje tem entre 16 e 20 anos (vamos chamá-los de Millennials) não tem essa questão. Segundo o estudo Verdade Sobre Os Jovens, feito pela agência de propaganda WMcCann, a molecada não está muito aí pra isso de girar a chavinha, de virar adulto e assim ficar. Para eles, não tem um rito de passagem, um momento que a pessoa se toca ”danou-se: cresci”. Tipo entrar na faculdade, ou casar, ou sair do armário. Necas. Mais do que eventos marcantes, o que diferencia o adolescente do adulto são comportamentos eventuais. Então a questão é: que comportamentos são esses? O que faz a pessoa ser um adulto?

 

Primeiro teste: olhe para seu celular. A tela está rachada? Se estiver inteira, você é adulto. Fim de papo. Celular de gente grande também quebra a tela – a diferença é que os mais velhos trocam o vidro rápido. Outro indicativo: caneca de café. Se for caneca chique, você é um adulto. Ler jornal de papel? Adulto-Jurássico. Jantar com casal de amigos? Gastro-Adulto. Usar camisa branca o dia inteiro, sem sujar? Adulto-Finesse. Ir dormir sempre no mesmo horário: Adulto-Com-Toc. Ir ao cinema sozinho? Adulto-Cult.

 

Aí os adolescentes optam por experimentar esses e outros hábitos de gente crescida para ver qual é. Tipo espiadinha por cima do muro. Ensaiam várias condutas para ver o que funciona – e em seguida, voltam pro Snapchat como se nada tivesse acontecido. Eles já fazem isso nas mídias sociais: assumem personas diferentes para ver o que vai dar, e depois (se for o caso) absorvem o que funcionou. Um test drive da vida, para depois decidir com mais base. Com mais tempo.

 

E põe tempo nisso. Para termos uma ideia: no Brasil, é socialmente aceitável morar com os pais até os 36 anos de idade. Em Hong Kong, a pessoa pode ir ficando na casa materna até os 41. Já pensou? Mamãe trazendo Nescau na cama até os quarentinha? Gozado que eles ainda querem mudar o mundo, mas não mudar de casa.

 

Adorei a ideia de flertar com um universo alheio e ver qual é. Vou usar. No meu caso, quero um pouco de adolescência. Quero saber se ainda tenho resquícios de moleque pelo DNA. Tipo herança esquecida, como o apêndice. A esperança é que eu ainda tenha aquela gana teen de vida – agora somada à maturidade. Coragem e equilíbrio. O melhor dos dois mundos. Vou experimentar, vou dar aquela espiadinha por cima do muro. Se não der certo, volto pra minha caneca de café chique numa boa.