Um morena de cabelos curtos, charmosa e bem desenhada, chega em casa ao som da vulcânica Wishing Well (Terence Trent Darby). Toma seu banho cuidadoso e vai pra frente do armário. Horas ali. Experimenta uma calça, outra, uma terceira – até escolher um jeans cuidadosamente comum e uma camiseta branca básica. A campainha toca, ela atende conforme o plano: com os cabelos ainda molhados. O sujeito à porta balbucia, debilmente: “você está linda”. E ela, fingindo-se desencanada, morde uma maçã enquanto minimiza o elogio recém-recebido: “imagina, mal tive tempo de me arrumar”.

 

A cena acima é de um comercial de Jeans Pool, da longínqua década de 80. Filme importante: além de ganhar muitos prêmios, ainda trouxe para o horário nobre um estranho hábito comportamental: a Desculpinha. Me explico: é aquele cacoete, totalmente feminino, de receber elogio se explicando, diminuindo o valor, relativizando o comentário – como se receber agrado fosse motivo de culpa. Falam: “você está mais linda que Ipanema!”, e ela responde: “estou é enorme de gorda”. Ou então: “sua casa está um primor”. E ela: “é, mas outro dia apareceu uma barata de dois quilos”.

 

Para um homem, a princípio, parece que a dama está fazendo charme. Os mais incautos podem imaginar que ela está só “fishing for compliments” – ou pedindo mais elogios ainda. Negativo: não é dengo. É outra coisa.

 

Vamos comparar com os homens. A gente, quando recebe elogio, pensa duas coisas: A) sim, sou mesmo isso tudo, obrigado por ser tão perspicaz; e B) estão querendo dar pra mim. Se o elogio for a respeito de algo não corpóreo, tipo o carro do sujeito, muda um pouco o cenário: A) sim, meu carro é lindo, parabéns por reconhecer; B) quer comprar meu carro?; e C) estão querendo dar pra mim. Não tem complicação: homem aceita e comemora. Em seguida, conta pros amigos, sempre enfatizando o item C.

 

Não faz sentido diminuir o próprio mérito. Ainda mais nessa hora da vitória, quando as outras pessoas percebem seu esforço em melhorar, em permanecer magra, em morar numa casa bem cuidada (por exemplo). Ninguém precisa pôr a si mesmo para baixo; as outras pessoas fazem isso muito bem por você. Achar defeito é algo que a gente terceiriza; não fica sob a nossa própria responsabilidade.

 

Parte da questão vem do irritante politicamente correto. Claro. Ele, que já matou humoristas e inventou preconceitos, também está soprando seu bafo de enxofre no direito divino de ser louvada. Hoje, todo mundo é obrigado a ser humilde; está vetada a vaidade. Mas não é só isso, não. Também dá a impressão, olhando de fora (nasci menino), que a mulherada também se exige demais. Não basta estar bonita; tem que também ter sobriedade e saber levitar. É a Maldição de Angelina Jolie, um padrão a ser seguido: linda, boa mãe, bem casada, rica, famosa, premiada – e, ainda por cima, embaixadora da ONU.

 

Se a ideia é encantar através da modéstia, aviso: não está funcionando. Modéstia não tem muita graça, como tudo que é irritantemente correto. Isso é bom se a pessoa ganha o Prêmio Nobel – e não um elogio. Sugiro que vocês, garotas, sejam pessoas mais simples. É fácil, olha só: crítica é ruim, aplauso é bom. Pronto. Da próxima vez que disserem que você está bonita (tem que ser coisa elegante; não vale assobio de pedreiro), estufem o peito e digam: “Dane-se, estou mesmo.”