Tenho tentado o desapego do celular. A vida é maior fora dele – mas não é uma vida fácil. Se você está ao ar livre, ou diante da televisão, há assunto pra distrair. No ônibus, basta olhar para fora: tem sempre a fauna ao redor das ruas. Lojas, gente, assaltos, muita coisa diferente pra ver. No restaurante é importante conter a vontade de fotografar o prato – pra não ficar manuseando o aparelho. Temos que evitar o primeiro touch screen.

 

Mas e quando estamos em um ambiente inóspito? Sala de espera de um consultório ou, pior, lavabo do mesmo lugar? As revistas são inúteis. O acervo ali vai da Manchete de 1986 à Urologia Moderna do mês passado. Nada para ocupar o cérebro. Sorte que o consultório onde eu estava era de psicóloga. A terapia começava na espera, pendurada pelas paredes. Cartazes e quadros com pensamentos profundos e provocadores. O paciente já vinha adiantando o assunto interno desde a recepção.

 

Um desses cartazes eu gostei. Falava de Regras do Amor. Parecia comédia com a Jennifer Aniston. Achei bonitinho justamente pela ingenuidade. Eram regras de fácil aplicação no dia a dia. Vamos analisar – considerei. Porque é isso que farão comigo assim que eu entrar no consultório – conclui.

 

A primeira das regras era Dar Sempre Beijo de Boa Noite. Concordo. Funciona com mãe, pai, filho, namorada, irmão, todo mundo. Está acessível, porque damos beijo de boa noite nas pessoas que estão ao redor. Sugere reconciliação e deixa o sono mais leve. Grande começo de cartaz – pensei eu.

 

Passei ao segundo item: Traga Flores Porque Sim. Aprovo também. Flores deixam a casa com energia boa. E a namorada, ou namorado, nossa, eles ficam muito felizes. O problema é que – normalmente – a gente nunca dá flores. Perdemos o hábito. Então, quando aparece um buquê assim, do nada, a outra parte pode pensar que você aprontou alguma. Vai por mim.

 

O terceiro item era Cozinhe Comigo. Verdade: cozinhar a dois é muito gostoso – desde que não seja obrigação de todo dia. Se cozinhar for obrigação, então sou mais um Vamos Chamar Um Japa Pra Ninguém Precisar Trabalhar. Mas entendo a intenção: tornar o cotidiano mais prazeroso. Beleza.

 

Quarto item: Cante Para Mim Porque Sua Voz é Sempre Linda. Então. Aí, não. Se você está namorando com a Nina Simone ou o com o Eddie Vedder, tudo bem. Mas a maioria das pessoas é desafinada como uma maritaca. Sem querer criticar. Quem canta mal tortura o outro – fim. Dou apoio se a relação for sado-masô; tem gosto pra tudo.

 

Aí entrava o quinto item: Dance com Ela Mesmo Se Não Houver Música. Hmmm, achei uma coisa meio Disney demais. Merece uma adaptação: vou tomar um gim tônica e dançar ao som de Elton John. Deve dar no mesmo.

 

Por último, Ame-Me Por Toda a Eternidade. Essa ideia eu não compro. Amar por tanto tempo parece maldição chinesa. Sugiro uma alternativa: Ame-Me Enquanto Estivermos Juntos. Pronto. Assim é sinal de respeito – e não praga. Se você juntar a dança do parágrafo acima com o amor em si, temos uma música linda do Leonard Cohen: “Dance Me To the End Of Love”.

 

Excelente para uma sala de espera, hein? E sem olhar no celular.