Outro dia falei de sotaques sedutores com minha amiga Paulinha Inhotim (mais bonita que o parque mineiro). Os italianos, por exemplo, deixam Paulinha de zóiinho virado no primeiro Buonasera. Se for no pé de ouvido, sussurrado, gente do céu, basta um mísero Ciao para a cidadela brasileira cair desavergonhadamente em mãos romanas. Porca miseria. Jomar, meu sábio pessoal, prefere o francês: é a única língua que já vem com orgasmo de fábrica. Comigo, o acento do Rio funciona melhor. Principalmente se for carioca imitando paulista. É o meu segundo sotaque preferido. Só perde do baiano, o mais sensacional de todos.

 

Primeiro, pela sonoridade. Quando eles falam, eu escuto a rede fazendo nhé-nhé na varanda. Baianos fazem pelo ouvido o que a massagem faz pelo pé. O vocabulário também é sensacional. Dependendo da situação, é indispensável até tradutor. Pense!

 

O simples “olá, como vai?” dos baianos já é único: colé de mermo? Chegando assim, com tamanha malemolência, é cantada vitoriosa logo no contato inaugural. Discrição, estratégia sempre muito apreciada, é fazer na cocó. Quando baiano está a fim de alguém, ele está de frete com a pessoa. Combinou buscar a moça em casa? Baiano avisa: te pego em duas horas de relógio – sendo que isso pode significar dois dias de calendário. A cabrocha está agitada, querendo cair na noite? Ela está toda sibulino. Baiano também não fica se exibindo, se mostrando pros outros. Quem faz isso é paulista, com o carro, com o relógio, com a barba por fazer. Baiano simplesmente estarra.

 

Sair para beber é comer água. Eles também usam, de modo chulo, esse mesmo verbo para o sexo. Mas sejamos elegantes. Baiano é elegante. Menos para dar o fora. Aí, baiano é direto e até duro. Quando não gosta da cantada, manda o pretendente pegar a BR – ou seja: tome seu rumo! E ainda completa o fora dizendo não lhe dei ousadia – que nem a ministra falou pro senador, dia desses. Traduzindo, seria um “como se atreve?”. Que não contém a mesma poesia da versão nordestina. Aooooonde, falado assim mesmo, esticando as notas, é a maneira soteropolitana de dizer “de jeito nenhum”. O namorado aprontou todas e agora tem que encarar o pé na bunda? Baiano fala receba a galinha pulando. Agora aguenta, nego!

 

Tudo na Bahia faz a gente querer bem, como disse Caetano. Tudo conspira para o amor. Não é só sotaque. Tem o jeito de receber, de cantar parabéns pra você e, principalmente, o jeito de fazer nada. Nisso, não tem povo melhor. Ficar de papo para o ar deveria ser o projeto de todo casal. Casais que conseguem ficar sem fazer um catso, só de xamego, só de dengo, ôxe: que maravilha.

 

Amar alguém da Bahia só é ruim no carnaval.