Caiu na minha mão um livro chamado História da Polidez, do Frédéric Rouvillois (Editora Grua). Nele, descubro a origem do cavalheirismo. Apesar do Fréd defender que o movimento começou na Revolução Francesa (quando o Ser Humano virou importante), a verdade é que antes disso já existiam práticas cavalheirescas na Europa. Luís XVI era um sujeito muito cortês, por exemplo  – até descobrir que ia ser decapitado, claro.

 

Vamos para o próximo ponto: é também na Revolução Francesa que surge o feminismo. Juro. Eu pensava que tinha começado só no século XX, mas não: já em 1791 Olympe de Gouges escreveu a “Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã” – uma resposta à “Declaração dos Direitos do Homem”, de 1789. Uma das frases da Olympe, para vocês sentirem a pegada: quem te deu o poder supremo de oprimir o meu sexo? Vixe.

 

Então, tanto o cavalheirismo como o feminismo começaram mais ou menos junto. Mas, se nos cento e poucos anos seguintes o cavalheirismo até que progrediu, virando modo de conduta, o feminismo preferiu ficar escondido embaixo dos vestidos armados. Atrofiou. Talvez tenha sido uma postura mais conivente das mulheres, amolecidas pelas cortesias e lencinhos da época. Veja que as duas coisas nasceram juntas, feminismo e cavalheirismo – mas o primeiro murchou, e o segundo resistiu. Ou seja: quando o cavalheirismo era natural e espontâneo, o feminismo pouco se manifestava. A se pensar.

 

Foi assim até a década de 50, quando os homens começaram a tratar as mulheres com superioridade ao invés de cortesia. O cavalheirismo sofreu uma mutação, e o machismo apareceu. Como ninguém gosta de ser mal tratada, a resposta foi natural: o feminismo voltou babando. Pondo dedo no olho e dando belisquinho na banha do lado da cintura (onde dói mais).

 

E desde então, conforme a briga piora, mais o machismo é confundido com o cavalheirismo. Isso é como dizer que futebol e futebol americano são o mesmo esporte. Não são: um é mais elegante, o outro muito mais brutal.

 

Enquanto o cavalheirismo busca colocar a mulher em um lugar superior, o machismo faz o contrário: inferioriza. Enquanto um é modo de tratamento consagrado, o outro é cada vez mais demonizado. O cavalheirismo busca normatizar para toda sociedade o que é educado; o machismo é uma decisão individual, onde o sujeito escolhe sozinho ser asqueroso.

 

Vou dar exemplos. Cavalheirismo é catar uma moeda que a moça derrubou para ela não precisar se abaixar. Machismo é pegar a moeda porque senão ela vai gastar com roupa. Cavalheirismo é abrir a porta do carro para ela entrar; machismo é sugerir que ela não sabe fazer baliza. Cavalheirismo é pagar um jantar porque isso é gentil; machismo é bancar baseado na suposição que toda mulher ganha mal (quando trabalha). Percebem?

 

Então, daqui pra diante, combatam o inimigo certo. Não vamos encasquetar com o cavalheirismo. O inimigo é a sua versão mutante, a metamorfose ao contrário – que transforma a linda borboleta em uma lagarta gosmenta e venenosa. Cavalheirismo é Bruce Banner – cientista, sensível, musiquinha. Machismo é o Hulk com crise de pedra no rim.