Em 2011 tive um programa no rádio. Nele, conversei com Laerte (já de guarda-roupa renovado), Raí, Francis Hime, Lobão, Jair Rodrigues, Zé do Caixão – um monte de gente. Em mais de cinquenta entrevistas, notei uma coisa comum a todos os convidados: o fracasso. Todo mundo tinha passado por dificuldades ali. Falências, reprovações, padres assanhados. Em uma palavra, o drama.

O drama. É o que aproxima pessoas bem–sucedidas, como Raí e Francis, de gente normal. É, também, o que faz ficção e realidade serem tão próximas. Breaking Bad, por exemplo, parte de um personagem frustrado que se vê doente e durango, sem ter como sustentar a família. Sofrimento parecido com o de muita gente – um dos motivos da série ter dado certo.

O desastre, o fracasso, a fatalidade são inevitáveis em qualquer trama. Porque a vida é assim. Desconfio de personagens (reais ou imaginários) que só falam em vitórias. Porque o tombo faz parte da formação. Chega até a ser desejável. Head Hunters chamam isso de “experiência crítica”. Trabalhar na Venezuela é experiência crítica. Ter chefe escroto, tentar o ajuste fiscal – idem. A lógica é a seguinte: se o sujeito passou por dificuldades e deu seu jeito, ele tem preparo. Não vai tremer o beicinho diante de uma encrenca. É o tal gerenciamento de crises, tão importante numa narrativa.

Digo tudo isso porque 2015 foi o ano da experiência crítica. O Brasil virou uma temporada do Netflix, de tanta virada emocionante. Não é reveillon – é final da temporada. Teve traição, escândalo, polícia, assalto. Game of Thrones perde. Mas faltou uma coisa importante: núcleo amoroso. Os roteiristas esqueceram-se de pôr afeto em 2015. Compreensível: quem consegue sentir um perfume, elogiar um corte de cabelo, admirar uma bunda, com nome sujo no SPC?

Estamos diante do amortecimento dos sentidos. A pessoa procura um bom partido – e pensam que você está falando de política. Tem mais coisa no mundo, rapaziada. Não se vive só de ocupação de escolas; alguém também tem que ocupar esse coraçãozinho revolucionário. Vamos crescer esse enredo.

Faltou também recursos para produzir 2015. Tudo muito chinfrim. Não tivemos efeitos especiais (pedalada não é efeito especial), nem imagens aéreas, nem grandes cenas de batalha. No máximo, rolou uns tabefinhos no Congresso. Coisa de série ucraniana. Sem dinheiro, não houve como contratar um casal apaixonado. Os dois lá no Planalto nunca tiveram química. Casais assim, sem liga, sem paixão, sempre vão mal no Ibope.

Só que agora chega. Pra temporada que vem, vamos aliviar o clima. É a técnica de roteiro mais clássica: antes de uma reviravolta, o herói se ferra. Estamos neste ponto. Temos, então, 2016 inteiro pra inverter essa curva dramática. A gente pode até estar apanhando no final da Season 2015, mas, lembrem-se: o mocinho sempre ganha no final.