Da Universidade dos Estudos Inúteis (fica em Facebook, Estados Unidos), chega importante publicação sobre gente solitária. Segundo apurou-se, essas pessoas são assim (solitárias) porque têm imensa dificuldade em se relacionar. Que até conseguem fazer amigos porque entendem – na teoria – como agir. Aprenderam racionalmente como funciona a sociedade e se comportam nos conformes dela. Quase que nem o Dexter do seriado, um psicopata que aprendeu a viver em sociedade pra ninguém desconfiar que ele é serial killer.

 

O estudo é incompleto. Porque parte do pressuposto de que ser solitário é sempre um desvio de personalidade. Uma aberração social. Uma doença. Pode até ser; a raça humana é bem descompensada mesmo. Vamos avaliar.

 

Pra começar, é importante dividir a espécie dos solitários – chamemos de Homo solus – em dois subgrupos: os que querem ficar sozinhos e os que não querem.

 

Os que não querem ficar sozinhos não são solitários. Ponto. Estão assim por contingência. Acabaram de levar pé na bunda, estão sem dinheiro pra sair, se mudaram para Dubai, enfim: eles estão sós – mas não são solitários. Basta convidar pra qualquer coisa, chá de bebê incluído, que eles saem da toca.

 

Falemos, então, daqueles que optaram por ficar sozinhos, de livre vontade. Pessoas que preferem a solidão. Deste grupo, vamos isolar os malucos e freaks. É o que eles querem mesmo: isolamento. Provavelmente devem ser os psicopatas citados no primeiro parágrafo. Escondem-se por raiva da sociedade, incompetência para se encaixar em grupos, lepra, sei lá. Alguém que vá até alguma caverna na Chapada e pergunte lá pra eles. Não têm jeito nem salvação. Usam barba comprida e cajado. Vamos deixá-los na Chapada mesmo, na deles, tomando café na caneca de lata.

 

Foquemos nos sujeitos saudáveis. Então: se são saudáveis, por que cátso eles preferem ser sozinhos? Fácil: porque é bom. Sobra dinheiro. Vão gastar em quê? Em cabarés, babás e resorts pra toda a família? Não: em tranqueiras para deixar a casa mais legal. TV de LED, X-Box, sofá, coleção de vinil, livros e gatos (pra ter alguma companhia). Com um lar sob medida, quem quer sair, conversar, interagir? Outra: ao optar por ser um Homo solus, o sujeito acaba convivendo com a pessoa que mais gosta na vida: ele próprio. Não há grandes disputas caseiras. Quer assistir a um filme ucraniano todo falado em linguagem de sinais? Feito. A casa do Homo solus é um ecossistema em equilíbrio.

 

Podemos, então, afirmar que a solidão é uma boa forma de convívio? Taxativamente: não. Há indícios sérios sugerindo que os neandertais perderam dos sapiens, trinta mil anos atrás, por causa da incapacidade de socialização, de ir até a aldeia vizinha e pedir uma tocha de fogo emprestada. Então, ficar sozinho é uma delícia – mas perigoso: ninguém ganha uma guerra sem ajuda. Olha o que aconteceu com os neandertais. Foram pra cucuia.

 

Solidão é bom quando é eventual; quando é um soluço de individualidade em um universo cada vez mais social. Se o Homo solus ficar muito dentro de si, em pouco tempo estará com a barba enorme, tomando café na caneca de latão e morando em cavernas da Chapada – seguindo o exemplo dos saudosos primos neandertais. Aviso: já deu errado antes.