O Dom Pedro I (do Brasil) era bem assanhado: além da Princesa Leopoldina, com quem era casado oficialmente, ele também mantinha contatos frequentes com metade da corte (a metade feminina). Marquesa de Santos foi uma dessas relações. O affair começou em 1822 e – dizem – terminou em 1829, quando o Imperador do Brasil resolveu casar pela segunda vez, com a princesa austríaca Amélia de Leuchtenberg. Então, vá somando: dois casamentos, a Marquesa ali de canto – e mais metade da corte.

 

Já a história do Dom Pedro I (de Portugal) é parecida, mas ao contrário. Quinhentos anos antes que seu homônimo brasileiro (ano 1340, por aí), ele conheceu Inês de Castro. Ele também era casado – com Constança Manuel. Mas, fazer o quê: mesmo já comprometido seriamente, Dom Pedro I (de Portugal) enlouqueceu quando conheceu Inês. Tiveram um caso ligeiramente escondido, que se manteve até a Constança morrer no parto.

 

Quando Constança empacotou, Dom Pedro I assumiu Dona Inês. O que era meio velado, esculachou – e o romance ficou oficial. Mas a corte portuguesa não gostava desse amorzinho. Dona Inês era aia, filha de mordomo. Não pegava bem um príncipe andar por aí com uma aia. Enquanto era um caso, tudo bem. Depois, quando ficou sério, não era mais tudo bem. Então o rei, pai de Dom Pedro I (de Portugal), resolveu interferir. Assim que o filho saiu pra caçar com amigos, mandou matar a Inês num zás-trás. Degolada. Pense: degolada.

 

Dom Pedro I (de Portugal) voltou de viagem e ficou invocado. Claro. Brigou feio com o pai, nunca mais se falaram. Aí, meses depois do assassinato, chegou a hora do próprio rei ir pra cova. E olha o que é o destino: a coroa foi parar na cabeça de quem? De quem? Isso mesmo: Dom Pedro I. Que, quando soube que iria virar rei, simplesmente disse: “agora é tarde; Inês é morta“.

 

Como primeiro ato, Dom Pedro I mandou desenterrar Inês e obrigou a corte portuguesa inteira a beijar a mão de sua amada. Imagino a nobreza toda, em fila, segurando o vômito com lencinhos de seda, aguardando a vez para beijar o punho esquelético e putrefato da Inês. Em seguida, empossou sua amada como rainha póstuma e enterrou a dama com honras, no espetacular Mosteiro de Alcobaça – perto de Coimbra. Hoje, Dom Pedro I e Dona Inês estão em dois túmulos um de frente para o outro – para que possam se ver quando ressuscitarem.

 

Conto essa história dos Pedros porque são realmente dois caminhos diferentes de vida. Um, optou pela quantidade. O outro, se encantou com uma só. Não quero aqui dizer qual escolha é a certa; cada um sabe onde seu coração aperta. Mas, convenhamos, a história de Dona Inês é muito mais comovente. A pessoa pode ter um monte de mulheres, mas é bem mais lindo quando a coisa acontece com uma única dama.

 

Aí o leitor ou leitora pode pensar que estou falando mal do Dom Pedro I (do Brasil). Longe de mim. Gosto do cara. Prefiro pensar que o nosso Pedro procurou, tentou várias – mas teve menos sorte que o Pedro deles. Não achou a sua Inês de Castro. Sim, concordo: nosso Pedro sofreu menos. Sofrer é ruim. Mas e daí? Quem quer sofrer menos melhor nem começar a namorar.