Me informa Charlise, Minha Bela Editora, que 70% do público deste blog me lê no celular. E que a audiência do Estadão Mobile cresce vitaminada que nem adolescente sueca. Fico projetando essa gente toda de pé, no ponto de ônibus, debruçada no aparelhinho. Multidões que, sem nada para fazer a não ser esperar, desligam do exterior e vão fuçar no telefone. Trocam a grandiosidade da vida ao redor por 45 cm2 de vidro riscado. Presidiários assistem ao nascer do sol em telas maiores do que essa. Frejat, do Barão Vermelho, outro dia se queixava: seu público prefere filmar o show no celular do que acompanhar o que acontece ali em frente, no palco, a centímetros de distância.

 

Se as pessoas ficam o tempo todo conectadas, quando que exercitam o hábito da contemplação, tão vital para a saúde mental? E, veja, não sou eu quem está dizendo que é bom. Quem primeiro discorreu sobre a importância de pensar xongas foi Aristóteles. Ele achava que deixar o cérebro vazio era o caminho para a felicidade. Como Aristóteles foi o pai da biologia, da lógica, da dramaturgia e professor de Alexandre (o Grande), algo de inteligente deve ter nisso aí. Para ele, contemplar era delicioso como um feriado. São Tomás de Aquino, outro sábio, dizia que era um momento de lazer (Tomás plagiava muita ideia do Ari; não sei como virou santo).

 

Quando a gente deixa o cérebro divagando, ideias aparecem. Problemas são resolvidos, músicas são decifradas. Imagine-se, por exemplo, em uma praia. Situação comum. Você, sentadinho na cadeira, embaixo do guarda-sol. Ao invés de ficar olhando em volta, aproveitando um glorioso dia de verão no Brasil, você pega seu celular. Cede à tentação de ir pra vida virtual, mesmo estando num momento sublime da vida real. O que você perderia?

 

Bom, eu fiz o teste. Fui pra praia, desliguei o celular e olhei em redor para conferir a vizinhança (leia-se “mapear bundas”). O mar estava lindo, tinha gente surfando e crianças fazendo castelinho estilo Gaudí na beira. Tinha também duas pessoas jogando frescobol (mal). E uma moça levando um baita caldo, expondo sem querer uma magistral marca de biquini (não que eu tenha reparado). Tinha um sujeito vendendo queijo coalho a seis reais – mas topando por quatro. E um pai ensinando o filho a empinar papagaio. Meu cérebro gritava iupi. Duvido que passaria pelo mesmo deslumbramento diante de um vídeo do Porta.

 

Claro – diz o Pragmático. Você está na praia, tudo é lindo. Verdade. Mas perceber a beleza é tarefa de quem observa. Mesmo no ponto de ônibus, olha quanta coisa inspiradora: o casal cheio de ódio que discute baixinho – aposto que eles fazem as pazes antes de chegarem em casa. A loura de casaco de franja, botona e fone de ouvido – deve estar curtindo Kate Perry. A banca de DVDs do camelô – compro “Que Horas Ela Volta” e dane-se o direito autoral?

 

Contemplar é melhor que ficar conectado. Aristóteles estava certo. Aliás, mais do que você imagina. Porque, para ele, contemplar era mais gostoso ainda se praticado entre amigos. Ou seja, a hora da cerveja. Realmente, aí o cérebro fica em júbilo. Nesses casos de contemplação social, até pode usar o celular: de algum jeito você precisa combinar o bar, concorda? E dá pra dizer “vou contemplar” ao invés de “vou tomar umas com os caras”. Ari era gênio.