Agora que a Alemanha foi-se da Bahia, o que será de nós ? – perguntava, desnorteada, a loura de calça imitando couro, Red Bull na mão direita, Whatsapp na mão esquerda.  Agora, minha querida, meu companheiro, é que nem no carnaval: sacode o confete e vai pra vida. Em março foi a mesma coisa: alguns dias de maravilhosa folia seguidos por ressaca na quarta-feira – amanhã –  e saudade de depois de amanhã em diante. Estamos todos acostumados, não estamos ?

 

Não estamos. Esta quarta feira de cinzas é diferente.

 

Começa que, no carnaval, você sabe o que vai enfrentar desde o primeiro instante. Programando bem, dá pra ficar de pileque duas vezes por dia. Copa, não: a gente foi descobrindo como funcionava aos poucos. E Copa dura um mês, enquanto carnaval vai de sexta a terça – tirando a Bahia, onde o axé vem durando, com ligeiras interrupções, desde a Copa do Uruguai – 1930.

 

Mas em 2014, ano que o Brasil recebeu dois carnavais, até na Bahia de Podolski (e Caetano) a festa acabou junto com o resto do país. E o que dói feito samba do Chico não são os times voltando pra casa. É a torcida, de cara pintada e camisa da seleção cheirando cerveja.

 

Porque teve gente que se apaixonou.

 

Da mesma maneira que acontece no carnaval, pra muita gente a Copa virou coisa séria. O amor é imprevisível, aparece em Cabrália e também na FanFest. Só depende de duas pessoas distraídas. É quando a pessoa menos procura que o amor aparece – justamente quando se está usando calcinha de cinco reais, por exemplo.

 

Não se apaixona de abadá ou de camisa da seleção, gente. Mas temos que reconhecer: era inevitável. O maior evento esportivo do planeta, no país mais legal do universo. É o estádio perfeito para Cupido jogar. A Copa dá peso aos beijos. Engrandece o próprio amor.  São duas pessoas fazendo um pacto de saliva durante a Copa das Copas. É como dar um primeiro beijo na luz do luar – e de repente aparece o Cometa de Halley.

 

E agora, pra reencontrar ? Bom, deixa eu contar uma história pra vocês. É uma das versões gregas sobre o amor.  Dizem que foi Platão quem descreveu tal teretetê –  eu desconfio que não foi ele, não.

 

Diz que Zeus – a Copa 2014 dos Deuses – começou a ter receio do mortais. Porque o Homem, através da ciência, da literatura, do estudo, estava se tornando cada vez melhor, cada vez mais perfeito, mais próximo dos Deuses. Zeus, para evitar esta ameaça, resolveu separar o humano em dois: homem e mulher. E pôs cada um num canto do mundo, para eles não se encontrarem nunca. Mas é do homem sair zanzando por aí, e inevitavelmente as duas almas gêmeas se reencontram. E se unem. E assim se tornam um só Deus.

 

Diferente da época de Zeus, agora a coisa está bem mais fácil. Tem a tecnologia. Então vá atrás, ué. Veja suas milhas, divida em dez, se vira. Cara-metade em alemão é besseren hälfte. Em francês é meilleure moitié. Anote num guardanapo, deve ter sobrado um no bolso depois das baladas na Vila Madalena.