Geórgia aparece aflita diante do Bloody Mary que estou bebendo. Me conta que está saindo com um príncipe sueco: ele abre a porta do carro, é engraçado, é carinhoso, está na idade certa, tudo nos conformes. Mas – e pisca os olhos, agoniada – não está rolando. Não fico com beija-flor na barriga, não suspiro, não sinto arrepio na nuca. E bate o punho na mesa, cobrando: me explica!

 

É química – respondo. Ela não se conforma: química é ciência. O que está acontecendo é inexplicável, enquanto a ciência está aí pra esclarecer as coisas. Argumento de volta: nem sempre, Geórgia. Como disse Shakespeare: há mais mistérios entre o céu e a Terra do que em nossa vã filosofia. Por exemplo, Pangeia: até hoje não se sabe a razão da América ter se afastado da África, milianos atrás. E os dinossauros? Foi asteroide, gripe ou guerra civil? A gente descobriu o Bóson de Higgs – mas nada da cura do câncer. Então, não é porque o assunto é ciência que vamos ter respostas definitivas.

 

Cientificamente falando, quem manda nessa parada de amor é o cérebro. Não é o coração – apesar de ser onde dói. Segundo Hipócrates, pai da medicina (aquele do juramento), é do cérebro que vem prazer, riso, tristeza, pena, dor e medo. É um intrincado processo químico, governado pela nossa massa cinzenta, que faz com que duas pessoas se atraiam, se curtam, sintam vontades e dediquem-se à preservação da espécie. Química é uma ciência exat…

 

Pode parar com o papo furado – me cortou Geórgia. Isso resolve só a segunda metade do assunto. Só explica o que acontece depois que bate o santo, que liga a chavinha, que acende a lareira – continua Geórgia. Qual o catalisador que incendeia essa maravilha de fluidos e suores, e que está faltando justamente com o meu par perfeito? Como que justo com o príncipe sueco isso não aparece? Não sei, Geórgia; para de me olhar assim. Tem coisas que a gente aceita e lamenta. E larga essa faca.

 

Vamos analisar: dá pra prever terremoto? Tsunami, erupção de vulcão, chuva de sapo, epidemia? Não dá. O amor também é assim. Ninguém sabe onde vai cair o raio. E, veja, o problema não é só a falta de química. Excesso é ainda pior. Quantas vezes a pessoa é arrastada para um relacionamento lazarento e desgraçado por não conseguir esquecer o sujeito, a mocinha? Se a falta de química impede a continuação do romance, o excesso torna impossível fugir dele. E aí são madrugadas varadas de olho aberto, tentando entender o motivo de estar ainda enfeitiçada pelo maldito. São sempre romances corrosivos, como a ferrugem (aliás, outro fenômeno químico).

 

Mas Geórgia só queria saber do príncipe sueco. E se eu insistir mais um pouco, esperando que apareça algo mais pra frente? – perguntou ela. Olha, Gê, as reações tendem a ser imediatas. Se você mistura Coca Cola e Mentos, a coisa explode na hora. Até rola de acontecer uma reação química de-va-ga-ri-nho. O fóssil demora milhões de anos para virar carvão. Você topa esperar esse tempo todo pelo lindo príncipe sueco?

 

Geórgia, resignada, pegou do meu copo e tomou metade em um gole só. Quem diria – disse ela. Mesmo formada, passada dos trinta, continuo rodando justamente em química.