respirar

Muitas vezes não é fácil ser psicóloga, apesar de amar minha profissão e sempre manter a postura de não me envolver mais do que é adequado, para não arruinar o trabalho terapêutico, confesso que dói ouvir alguns relatos de pacientes.

Quando ocupamos esse lugar sentimos na pele a responsabilidade de estarmos ali, na condição de ouvinte. Um lugar de acolhimento e ao mesmo tempo precisando ser firme nas pontuações a serem realizadas. Uma vida, uma nova história, sempre um desafio a ser trabalhado.

Os relatos chegam recheados de dor, traumas que vieram desde a infância e que ainda hoje determinam a forma que as pessoas se relacionam com o mundo e consigo mesmas. Dores que não passam com uma simples racionalização, não tem como passar uma borracha e sumir com as lembranças que se fazem presente, dia após dia.

Algumas pessoas optam pelo afastamento buscando respirar, retomar o controle da vida, pois até mesmo o poder de tomar decisões é podado, opiniões menosprezadas. Em alguns casos essa queixa vem direcionada à família de origem, outras vezes em relação ao parceiro, chefe e amigos.

Ser adulto e não encontrar a validação dói ainda mais, volta-se ao passado, a criança grita socorro e não é ouvida. Uma criança sem voz e invisível, a dor permanece à flor da pele. Muitas vezes dar um passo atrás é o que libera o ar, faz o sentimento de liberdade surgir, sendo possível partir em busca de novos caminhos. É preciso pensar, ressignificar essa vivência com lucidez, assim reconstruindo-se, fortalecendo o eu interior.

Cada um deve saber avaliar os seus limites, até onde pode ir, até onde pode ficar e lidar com a realidade de que nunca poderá voltar no tempo. O colo, a palavra de carinho e o reconhecimento podem nunca chegar, mas o futuro pode ser diferente, se você se permitir a mudar o olhar e se desfazer das amarras emocionais que te prendem ao passado.