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Hoje eu estava sentada na sacada de minha casa comendo um pão com mortadela pensando na porcaria que podia estar ingerindo e de repente estava eu com saudades de minha infância quando comer mortadela e tomar Tubaína eram  a melhor coisa do mundo. Lembrei-me da casa da Maria, uma amiga de infância que tinha uma horta linda, adorava pegar almeirão fresquinho e comer com sal. Ainda me lembro do cheiro, do toque da terra após ser molhada, da leveza e de estar ali aproveitando o momento.

Sal com manga verde, eu perdi as contas de quantas vezes levava bronca de minha mãe porque podia fazer mal, passava o dia em cima do pé de goiaba saboreando cada pedacinho das frutas onde minha única preocupação era cuidar para não engolir algum bichinho junto.

Fora os dias que passava jogando bets na rua, rodando a cidade de bicicleta, uma época de muita inocência, liberdade e tranquilidade que hoje já não podemos oferecer aos nossos filhos. Quase esqueci, ia a pé para a escola, nos dias de sol com sombrinhas coloridas e minha lancheira, ainda me lembro que levava uma Sodinha por dia e olhe que hoje sobrevivo aos refrigerantes.

 Adorava discos de vinil e as músicas românticas que me levavam a sonhar com o meu príncipe encantado. Fora as roupas, que eram compradas para um dia de festa, me lembro ainda de quando lançaram a primeira Ustop, não havia esse consumismo absurdo que vivemos hoje.

Ainda sentada na minha sacada fico contemplando e ouvindo o canto dos passarinhos em uma tarde calma de quarta-feira, isso porque estou de repouso com o pé quebrado. Mas, lá fora sei que estão reinando o caos, ataques, queimadas e desastres. Meus filhos… um está na escola, o outro em casa e me sinto triste de repente por não saber o que a vida prepara para eles. Não poderão curtir como eu a infância, nem andar de bike a cidade toda, não sem eu ficar com medo do que poderá acontecer.

No final das contas, o que é um pão com mortadela em um contexto de vida tão opressivo como esse que estamos vivendo, onde nem podemos ir ao supermercado sem correr o risco de ser vítima de um sequestro relâmpago, em que as janelas dos prédios devem ficar fechadas, pois existem escaladores que podem entrar e roubar sua casa e sua vida.

Logo entrei, pois a chuva vem chegando, mas não podia deixar de anotar minhas reflexões, ainda mais quando trabalho com um público em que comida virou o grande vilão, impedindo de se viver o presente com mais alegria, de aproveitar para ser feliz ao invés de não transar com o parceiro porque ele irá pegar nas gordurinhas da cintura.

Ser feliz deve ser a meta principal de nossa vida, sem nos apegarmos ao consumismo, ao corpo ideal, e sim a vida real, sem as neuras a mais do que aquelas que já somos obrigadas a enfrentar por fazer parte desse mundo aí fora.