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É comum encontrar pessoas que agem de uma forma fria, muitas vezes chega até incomodar o outro pela falta de empatia e rigidez. Chegamos até fazer uma primeira avaliação sobre essas pessoas e as classificamos como antipáticas e antissociais, mas podemos estar muito enganados.

Acredito que aprendemos a julgar o outro naturalmente, somos influenciados muitas vezes por comentários e por atitudes e expressões faciais. Nunca me esqueço de uma palestra que dei há alguns anos em que me incomodei muito com a expressão do rosto de uma ouvinte. Na época estava começando a falar em público e confesso que tinha um pavor imenso.

Voltando a tal palestra, eu evitava olhar para a pessoa que eu achava que o semblante era de descaso,  parecia haver uma dose de cinismo em seu sorriso. Para o meu espanto, uma semana depois ela estava dentro de meu consultório, veio em busca de terapia.

Claro que eu estava insegura, tinha receio de falar em público e saí identificando qualquer torcida de boca como algo ruim. Mas aposto que você já passou por alguma situação semelhante ou estou enganada?

Mas a vida me reservou uma surpresa, que doce de pessoa, que história de vida difícil, foi aí que entendi de onde vinha a expressão que havia me afetado.

A grande questão é que muitas pessoas se tornam frias devido alguma situação que as deixaram fragilizadas em algum momento de suas vidas ou até porque foram criadas dessa forma.  O que não percebem é que essa frieza ao invés de protegê-las pode expô-las ainda mais, deixando-as vulneráveis por não saberem lidar de uma forma mais tranquila com outras pessoas.

Você pode pensar como isso pode acontecer e eu vou te dar exemplos: um pai que ama o filho e não consegue mostrar esse afeto, uma mulher que gostaria de ser mais afetiva com as amigas, mas se sente presa, etc. Não faltam crenças que façam com que esse lado do afeto seja guardado a sete chaves, tudo muito racionalizado impedindo a livre expressão, a espontaneidade.

Desta forma fica claro que apesar de enfrentarem dificuldades em se abrirem, acabam não se permitindo experimentar novas situações. Perdem muito de usufruírem de uma troca mais saudável por que não relaxam, vivem em alerta no intuito de não perderem o controle das emoções.

Outra situação comum é que quando decidem abrir espaço para alguma pessoa adentrar em sua vida, elas fazem de forma intensa. Assim acabam optando pelo o outro extremo da frieza que é a entrega incondicional, machucando-se normalmente e tornando a acreditar que é melhor manter a distância, pois as pessoas não são confiáveis.

O equilíbrio é o caminho mais assertivo nas relações entre as pessoas, permitir-se a experimentar, ousar ser diferente, porém ao seu tempo, observando os sentimentos, prestando a atenção sim, mas vivendo. Amar e trocar afeto são comportamentos e sentimentos básicos entre as pessoas, não há como ser feliz preso dentro de si mesmo, deixando de experimentar a doce sensação de ser amado.