Como diziam meus avós, o casamento exige muito comprometimento e paciência, mas quando as maiores dificuldades estão relacionadas à alimentação, é preciso achar um caminho que agrade ao casal.

Sempre ouvimos histórias de brigas entre casais, seja por traição, possessividade, controle financeiro, divergências na forma de criar os filhos, mas cada dia que passa tem sido mais frequente chegar em meu consultório situações de brigas de casal em função das diferenças alimentares.

Sabemos o quanto é difícil quando queremos oferecer uma comida mais saudável aos nossos filhos quando um dos parceiros adora frituras, massas, poucas verduras, legumes e frutas. Vamos tentando adequar a alimentação para que todos fiquem satisfeitos, afinal o prazer de comer é muito particular, assim como o desejo de cuidar da saúde.

Mas essa nova modalidade de queixa tem me surpreendido, pois as reclamações sobre as restrições alimentares vêm tirando o prazer de passeios e momentos a dois, algo que antes afetava mais o convívio social, agora vem afetando aos casais em seus momentos de intimidade.

Estamos falando sobre os ortoréxicos, que são pessoas que só consomem alimentos muito saudáveis, riscando da sua lista qualquer alimento que acredite ser ruim, que não passe em seu próprio crivo sobre o que deve ser ou não consumido. Claro que escolhas saudáveis devem ser um foco para termos saúde, mas quando se torna um comportamento obsessivo, se torna uma doença.

A ortorexia vem crescendo de forma significativa, porém acaba sendo camuflada e demora a ser percebida pois se apoia na ideia inicial de ser saudável, mas acaba se tornando um ritual obsessivo, onde os rótulos, procedências, calorias, entre outros aspectos, acabam definindo uma dieta rígida e difícil de ser seguida fora do ambiente familiar. Essas restrições também levam ao desequilíbrio causando deficiências que afetam a saúde como um todo.

Um fim de semana em um resort, uma praia, ou mesmo na casa de familiares pode se tornar impraticável, ainda mais quando o ortoréxico ainda critica e tira o prazer do outro em fazer suas próprias escolhas alimentares, diferentes das quais acredita ser o correto.

Parece uma situação simples de se resolver, mas não é. Os conflitos vão aumentando à medida que a doença se agrava e a limitação de alimentos aumenta. Como a escolha alimentar é “saudável”, é difícil a busca por tratamentos, pois reconhecer-se doente leva tempo e na maioria das vezes exige intervenção dos familiares.

O tratamento sempre irá envolver especialistas da área de transtornos alimentares, como psiquiatra, psicólogo e nutricionista. A equipe trabalhando em conjunto dará suporte para que busque a mudança de comportamento na busca real do equilíbrio alimentar e também emocional.