Eram 8h de uma quarta-feira quando recebi uma ligação da minha mãe: meu pai tinha tido uma hemorragia. Era para eu ficar tranquila, tinham conseguido estancar o sangramento. Mas ele estava na UTI porque a pressão não tinha se estabilizado.

Não havia o que esperar. Teríamos um novo boletim do hospital às 11h. A maior angústia da família de um paciente de UTI é ter notícias só duas vezes por dia. Imagine para uma jornalista acostumada ao tempo real. Peguei a Bandeirantes a tempo de estar em Limeira para saber como meu pai tinha passado a noite.

As notícias não eram boas. Ele tinha tido dificuldade de respirar e teve que ser sedado e entubado. Minha mãe e eu em choque nos apegamos ao que podíamos: o estado dele era grave, MAS ESTÁVEL.

A caminho de casa, para aquele intervalo antes do próximo boletim, minha mãe contou o que havia acontecido naquela noite de terça. O sangramento havia começado em casa e ela teve que insistir para ele abrir a porta do banheiro e dizer o que estava acontecendo. Ele ainda se apegava a causas improváveis. “Foi a laranja que comi mais cedo”.

Não, não tinha sido a laranja. Minha mãe sabia disso e conseguiu levá-lo para o hospital a tempo de uma endoscopia de emergência. Uma úlcera no duodeno estava causando uma hemorragia grave. Os médicos conseguiram estancar o sangramento, mas era preciso esperar como ele reagiria.

Daria tudo para ter estado com eles naquela noite, na correria e na espera. No momento em que meu pai, ainda consciente, foi levado para UTI sob palavras de carinho e encorajamento da minha mãe.

Mas não posso reclamar. Tive a oportunidade de visitá-lo às 17h daquela quarta-feira. Ele estava inconsciente, tomando remédios para manter a pressão, com um aparelho para simular a circulação, um respirador. O rim ainda não tinha funcionado. Hoje tenho consciência da gravidade do quadro. Mas quando cravejei o médico de perguntas, não consegui ter essa clareza. Provavelmente porque ele não quisesse tornar tudo claro demais. Provavelmente porque nós não quiséssemos ver tudo como era.

Saímos de lá prontas para recebermos meu pai de volta em casa dali alguns dias. Mas não foi isso que aconteceu. Na manhã seguinte ele teve uma parada cardíaca e não conseguiram reanimá-lo. Quando o telefone tocou às 7h20 chamando a família de Emiliano até o hospital, já sabíamos.

Isso tem três meses. E aprendi que, além da saudade, o luto traz uma grande sensação de impotência. No sábado antes de sua morte, tinha ido com meus pais comer frango e polenta na quermesse enquanto jogávamos bingo. Era o tipo de coisa que ele gostava de fazer. É de lá a última foto que tenho do meu pai.

Se soubesse que ele não estava bem do estômago, teria tentado protegê-lo dessa última bomba calórica – embora isso dificilmente fosse salvá-lo. A bem da verdade, sempre tentávamos fazer com que ele comesse melhor, se cuidasse mais, fosse fazer mais exames, começasse a se exercitar.

Naquele último sábado, vendo que ele estava mais cansado do que o normal, me sentei com ele no sofá num misto de sabatina e sermão. Pai, o que é que você está sentindo? Mas dói as costas como? Será que é só o excesso de peso? Você está sentindo mais alguma coisa? Vamos combinar que você vai ver isso?

Preocupada, minha mãe tinha chegado a marcar uma consulta no cardiologista e disse que, desta vez, ia acompanhá-lo. Ele desmarcou sem avisá-la e transferiu a data para dali alguns dias. Não haveria mais tempo.

Ele não tinha como saber a gravidade de seu problema. Uma bomba-relógio, me disseram. Fiquei sabendo de outros casos semelhantes, a maioria com o mesmo desfecho. E isso, de alguma forma, me consolou.

Mas ainda dói saber que um exame preventivo poderia ter evitado o pior. Dói mais ainda pensar que ele pode ter notado sintomas antes daquele dia e não ter falado a ninguém. Pode ter deixado de dormir algum dia, às voltas com o medo de ter um câncer e os esforços para se convencer de que era só mais uma indigestão. Pode ter achado que deveria se manter forte, que ia passar. Sempre tinha passado, não?

É pensar nesses momentos em que ele enfrentou sozinho seus medos que dói mais. Pensar que nossos pais, avôs, maridos, filhos, tios, amigos sintam necessidade de carregar sozinhos seus fardos. E pedir que contem com nossa ajuda. Como sempre contamos com a ajuda deles, frágeis e fortes que somos.