Na segunda-feira, falei aqui no blog sobre a falta de representatividade das mulheres na política. No mês passado, fiz um texto sobre a importância, para os negócios, de ter mais diversidade nas empresas – para além do padrão homem, branco, hétero.

Como sempre, recebi uma chuva de comentários no Facebook, a maioria dizendo que o argumento da diversidade não deve se sobrepor à competência das pessoas. Seja no caso de políticos, seja no caso de profissionais. A meritocracia, dizem, deve imperar.

Nesta semana, a professora da Fundação Getulio Vargas Tahiane Piscitelli enfrentou uma reação semelhante nas redes. Tudo começou com o post abaixo, em que ela questionou a falta de mulheres no painel de um evento sobre direito tributário.

Devo confessar que, por muito tempo, achei normal ter só homens nos palcos e painéis. Afinal, não seriam os convidados os mais qualificados para o debate?

Essa percepção começou a mudar quando fiz um curso na Universidade de Oxford, quase 10 anos atrás. Lá, em contato com pessoas das mais variadas nacionalidades, comecei a escutar comentários incomodados quando a mesa só dava a palavra a um mesmo tipo de pessoa (geralmente homens brancos). E comecei a me questionar também: será que não há outras pessoas tão ou mais qualificadas para o debate? Será que a escolha dos convidados é baseada somente no mérito, seja profissional ou acadêmico?

Uma década se passou e tocar nesse assunto continua bastante polêmico no Brasil. Diante do post da professora, um outro docente da FGV decidiu entrar no debate. Primeiro, Eurico Marcos Diniz de Santis reconheceu em partes o problema.

 

eurico2

 

Um dia depois, disse que estava sentindo falta de sua “delicadeza e polidez para lidar com um assunto assim tão delicado”. O amigo, então, desfiou uma série de comentários que, digamos, elevaram o nível do debate, como podem ver abaixo.

 

 

Como bem lembrou a professora da FGV Angela Donaggio, era como convidar Donald Trump para falar de respeito às pessoas com deficiência (para quem não viu, o excelentíssimo presidente dos Estados Unidos imitou o problema de um repórter). Eurico, contudo, afirmou que não sabia que o convidado, a quem descreve como “inteligente e bem humorado”, iria fazer comentários ofensivos.

 

Eurico pede desculpas pelo comentário de seu convidado, manda florzinhas virtuais para as professoras, mas não enxerga o próprio machismo.

 

Diante das ofensas do convidado pelo professor para o debate, o Centro Acadêmico do Direito da GV e o Coletivo Feminista Anitta Malfatti cobraram uma posição da universidade. “É inadmissível que uma instituição que prega valores de excelência tenha, entre seus membros, profissionais com um pensamento tão retrógrado e, mais do que isso, tão capazes de incitar, em nome do bom humor, discurso de ódio contra minorias em seu perfil de rede social”, diz a nota.

NOTA DE REPÚDIO AOS COMENTÁRIOS MACHISTAS DE PROFESSORES DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS E COLEGAS O Centro Acadêmico…

Publicado por Centro Acadêmico Direito GV em Quarta, 31 de maio de 2017

 

A faculdade convocou uma reunião extraordinária do Comitê de Diversidade para ‘ouvir os envolvidos, apurar os fatos e sugerir medidas voltadas ao fortalecimento do respeito, da tolerância e da liberdade que servem de pilares de nosso convívio acadêmico’. Em nota, a FGV Direito de SP reafirmou seu ‘compromisso com a diversidade, o pluralismo e a tolerância, manifestando repúdio a posturas violentas, discriminatórias e depreciativas’.

“O espaço acadêmico deve sempre ser marcado por ampla liberdade de expressão, com responsabilidade, para que possa propiciar um robusto debate de ideias, o que exige de todos tolerância com as opiniões adversas. Isso não significa, no entanto, que formas abusivas de discurso e postura não possam ser objeto de crítica e eventual repreensão”, afirma a nota.

Diante da repercussão negativa e das cobranças de explicação, o professor Eurico voltou ao Facebook e pediu desculpas, que incluo abaixo.

 

Para além das baixarias das discussões no Facebook – e da complacência de muitos homens com esse problema (não, não é piada!) – fica ainda a questão da representatividade versus competência. Será que havia mulheres competentes para estar naquele painel? Ou todos os homens estavam lá graças à meritocracia?

Vou citar dois estudos e deixar que os leitores e leitoras tomem suas próprias conclusões.

Até o fim dos anos 70, as melhores orquestras americanas tinham menos de 5% de mulheres. Nos anos 1980, a média chegou a 10%. No final dos anos 90, a 25% e, hoje, cerca de 30% dos músicos são mulheres. A proporção dos candidatos não mudou, nem as exigências. O que fez a participação das mulheres aumentar, então? A forma de seleção dos candidatos é que mudou. As orquestras passaram a fazer audições a cego. Isto é: os músicos se apresentam atrás de uma cortina, e os “jurados” só podem avaliar sua qualidade técnica. Em algumas companhias, esse teste cego é uma primeira fase do processo. Em outras, os contratantes não sabem quem é o candidato – se é homem, mulher, branco, negro, gordo, magro, se tem ou não alguma deficiência – até o fim. Só incluir esse simples passo no começo do processo de seleção aumentou em 50% as chances de as mulheres estarem entre as finalistas para a vaga.

Em outro caso clássico, um professor de negócios da Universidade Columbia decidiu trocar o nome da personagem de um caso de estudo: em vez de Heidi, Howard. E descobriu que os alunos (homens e mulheres) preferiam trabalhar com Howard (homem), apesar de ele ter exatamente o mesmo currículo e experiência de Heidi (mulher).  

Da próxima vez em que defender a meritocracia, deixe as certezas inabaláveis de lado e se pergunte: tem a ver com competência ou com preconceito?