O Dia das Mães acabou. Foram milhares de histórias inspiradoras, mensagens de agradecimento, fotos fofas. Agora, acabou. E o mundo pode continuar tratando as mães como sempre trata.

Pode também continuar julgando suas formas de parir e de alimentar. Se ficou 1 hora em trabalho de parto, se ficou 46, se ficou dois anos na fila da adoção. Se pariu em casa, em cesária com plateia ou na porta do abrigo. Se tinha muito leite, se tinha pouco leite, se a mamadeira tinha bisfenol, se foi trazida de Miami. Se a papinha era industrializada, se só podia ser orgânica, se deu brócolis ou deixou de dar mel. Se o bebê estava magro ou gordo demais, independentemente da opinião médica. Se mandou cenouras em forma de Hello Kitty ou se esqueceu de comprar o lanche da escola.

Pode ainda continuar monitorando sua maneira de educar. Se decidiu dar chupeta, se não deu chupeta e a criança chorou. Se pegou muito no colo, se deixou de pegar. Se trabalhou demais, se “só” ficou em casa. Se protegeu e criou um pamonha. Se largou mão e criou um pestinha. Se ensinou a ler muito cedo ou se “só” foi ler na escola. Se teve um só e ficou mimado, se teve três e ficaram mal educados.

Pode continuar pagando às mulheres 66% do que os homens ganham. Segundo uma pesquisa publicada neste domingo pela Folha, essa diferença acontece porque elas têm mais interrupções na carreira – por causa da maternidade – e chegam aos 35 anos com oito meses a menos de tempo de trabalho do que eles. Oito meses e 34% menos dinheiro…

Pode voltar a julgar se ela pediu horário flexível na empresa (que folgada), se voltou da licença em carga total (que desnaturada). Se saiu para levar o filho ao pediatra (que folgada) ou se pediu para o pai, os avós fazerem isso (que desnaturada). Se posta todo santo dia uma foto do filho na rede social (que folgada) ou se decide nunca postar nada (que desnaturada).

E, mais do que controlar suas ações com os filhos, o mundo também pode continuar a vigiar suas atitudes como mulher. Se nunca mais bebeu e ficou chata. Se passou da dose e ficou alegre. Se adotou tênis e ficou relaxada. Se não abandonou a minissaia e virou periguete. Se abriu mão da própria felicidade em nome da convivência familiar. Se pediu o divórcio e destruiu a família margarina. Se fica sozinha pelos cantos. Se decide dançar e namorar.

Enfim, que bom que o Dia das Mães passou. Agora podemos todos esquecer o quanto adoramos essas mulheres e voltar a julgar todos os aspectos de suas existências.

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**Esse texto é para Fernanda T., que, com muita coragem, compartilhou suas desastrosas experiências de ser uma mãe no Tinder. Ela expôs quanto a sociedade adora dizer que ama as mães, mas quanto ódio elas recebem quando ousam lembrar que as mães são, antes de tudo, mulheres. A postagem foi retirada do ar, possivelmente pelos ataques que ela recebeu. É possível ler o conteúdo nesta reportagem do Uol. Todo meu apoio à Fernanda.