Que as empresas de tecnologia têm um problema com as mulheres, já se sabe há algum tempo. Em 2014, o Google revelou os números de mulheres e minorias empregados. E outras empresas, como LinkedIn, Facebook, Twitter, eBay e Apple, seguiram o exemplo. Todas concluíram que deveriam ter mais funcionárias – e dedicaram centenas de milhões de dólares a mudar sua cultura e suas práticas. A revista The Atlantic conta bem essa história em sua reportagem de capa deste mês.

Mas pouco de fato mudou de lá para cá. As mulheres ainda não chegam a um quarto dos cargos de computação e matemática nos Estados Unidos. Aqui, só 15,53% dos alunos de cursos relacionados à computação são mulheres e 41%das mulheres que trabalham com tecnologia acabam deixando a área, em comparação com apenas 17% dos homens. E algumas histórias recentes mostram algumas das razões para essa desigualdade.

Uma engenheira revelou que o Uber varreu para debaixo do tapete as denúncias de assédio que fez. O RH disse a ela que, como era a primeira reclamação e o funcionário tinha um ótimo desempenho, nada podia fazer. Susan Fowler descobriu depois que várias outras mulheres já tinham reclamado do mesmo sujeito. Perdeu várias oportunidades dentro da empresa, apesar de seu trabalho ser bem avaliado, e acabou aceitando uma proposta de outro lugar.

Outra engenheira acusou a Tesla de acobertar a prática de assédio e está processando a empresa por discriminação. AJ Vandermeyden disse que as denúncias que fez só lhe trouxeram problemas, como cobranças inatingíveis para que ela pudesse ser promovida.

Se o ambiente é tão hostil e as mulheres são minoria em cursos da área, não seria o caso, simplesmente, de deixar para lá? Por que as mulheres têm que estar também na tecnologia?

Adriana Salles Gomes, em seu blog no Estadão, explica: a tecnologia digital é crucial para a economia do século 21 e ‘funciona como um acelerador para quase tudo, inclusive para derrubar barreiras e igualar oportunidades para homens e mulheres’. Eu acrescentaria outra questão: porque nem sempre as mulheres foram tão poucas na tecnologia.

Até 1980, acredite se puder, a programação era vista como uma alternativa ao secretariado, uma carreira tipicamente feminina. Tinha começado entre telefonistas e cálculos na Segunda Guerra e nada tinha de glamour. Os homens, então, estavam mais interessados em fazer equipamentos, vista como a área do futuro. Mas o software passou a ser cada vez mais valorizado e a tendência se inverteu. Nos EUA, as mulheres chegaram a ser 37% dos graduados em ciência da computação em 1984, mas hoje são só 18%.

Há quem diga que parte da explicação está na educação das crianças. Os videogames foram colocados na prateleiras de brinquedos para meninos – que já saíam em vantagem no conhecimento computacional. E a cultura passou a retratar os programadores como nerds, jovens geniozinhos esquisitos. O filme A Vingança dos Nerds, por exemplo, é de 1984.

Filme 'A Vingança dos Nerds', de 1984

Qualquer que sejam as causas, o setor tenta lidar com as consequências. Recentemente, as empresas descobriram os treinamentos para preconceito inconsciente. Nesse tipo de atividade os funcionários descobrem que podem discriminar mulheres e minorias mesmo sem querer – tudo baseado na questão dos estereótipos, como discuti na semana passada.

Tudo parece ótimo, mas, na prática, a teoria é outra. Os funcionários podem até saber da discriminação velada, mas nada fazem para mudar a situação. Até porque, eu tenho preconceito, você tem preconceito, todos temos preconceito…

O que fazer, então? A reportagem da Atlantic cita o exemplo da Intel, que decidiu estabelecer metas na contratação e promoção de funcionários: 40% teriam que vir de minorias. E, para ganhar o bônus no final do ano, todos têm que atingir o objetivo. No ano passado, 43% das novas contratações eram mulheres ou outras minorias. E 40% dos novos vice-presidentes também. Com as ações, a proporção feminina passou de 23,5% em 2014 para 25,4% no ano passado. Parece que mexer no bolso foi mais eficiente do que fazer palestras e treinamento. Alguém duvidaria?

Mas tudo isso só vem acontecendo porque as mulheres decidiram falar sobre os problemas. E as empresas entenderam que era importante ouvi-las. Ainda que isso ainda esteja longe de ser a regra.

Humor revelador. Sobre o avanço das minorias nos conselhos das empresas britânicas, o presidente da varejista Tesco, John Allan, disse: “Se você é um homem branco, você é uma espécie em risco e terá que trabalhar duas vezes mais duro”. Não pegou bem e ele explicou: foi um comentário ‘bem humorado’. E quem disse que piada não pode ser preconceituosa? Estão aí os portugueses que não nos deixam mentir. Em tempo: Allan é um dois 8 homens brancos entre os 11 conselheiros da Tesco e a participação das mulheres nos conselhos do Reino Unido é a menor desde 2012.

Humor revelador 2. Todo mundo riu das crianças e da mãe ninja que invadiram a entrevista do especialista em Coreia para a BBC. E, depois, todo mundo riu da paródia da BBC sobre como seria a reação de uma mãe na mesma situação. Eu também ri. Mas, deixando a piada de lado, será que queremos mesmo ser vistas como capazes de lavar, limpar, cuidar e cozinhar sem perder o fio da meada no trabalho? A imagem da supermulher às vezes pode ser tão prejudicial quanto a da ‘mulherzinha’. Queremos ser só normais mesmo…

Por pouco. Garoto-propaganda da reforma da Previdência proposta pelo governo Temer, Henrique Meirelles defendeu igualar a idade de aposentadoria entre homens e mulheres dizendo que a diferença salarial entre homens e mulheres deve estar resolvida em 20 anos. Como diz Adriana Salles Gomes, gostaríamos muito que o ministro da Fazenda estivesse certo, mas não é o que os dados mostram. Ela cita uma pesquisa do Ipea que mostra que, de 1995 a 2015, a diferença salarial se manteve praticamente a mesma. Mantida a tendência, o provável é que as curvas só se encontrem daqui a cem anos. Antes que me critiquem, esclareço: sou a favor de igualar a idade para a aposentadoria. E de igualar salários para cargos iguais e de igualar os cuidados com a casa, com os filhos, com os pais doentes…

#AskHerMore. Amal Clooney foi às Nações Unidas defender que os combatentes do Estado Islâmico sejam julgados por genocídio. Ela representa mulheres yazidi que se tornaram escravas sexuais do grupo e comparou a situação atual à de Ruanda em 1994. E muita gente só falou de sua barriga de grávida de gêmeos. E da sua roupa. Do seu salto alto. Advogada reconhecida internacionalmente, professora em Universidades como Columbia e Haia, virou, de repente, um ‘baby bump’. De resto como acontece com as atrizes no tapete vermelho, que viram vestidos e joias e cabelos – e não profissionais. Para evitar isso foi criada a campanha: pergunte mais a ela. Então, para quem viu todos os comentários sobre o look, mas não sobre o que Amal estava falando, segue o vídeo (em inglês):

Beleza sem idade. Ela tem 57 anos e estrela campanhas de lingerie. Que tenhamos mais mulheres como Mercy Brewer nos anúncios e na vida. E que mais mulheres tenham orgulho de si mesmas – e não tenham que esperar até os 70 para fazer as pazes com o próprio corpo. Isso serve para os homens também, claro – embora, para eles, grisalho sempre tenha sido charme, e não desleixo.

Mickey Mouse

Non sense político.O deputado federal Victório Galli (PSC-MT) saiu da obscuridade para o obscurantismo na semana passada ao dizer que Mickey é homossexual e que a Disney faz ‘apologia ao gayzismo’. Para além da bizarrice da causa – será que o nobre parlamentar não tem outras questões para tratar? – e dos termos, é engraçada a ideia de ‘apologia’. É como se Mickey fosse capaz de convencer alguém a ser gay, lésbica, trans, o que seja. Porque o mundo é assim mesmo: a cultura fica tentando convencer as pessoas a serem gays, enquanto elas tentam resistir. E existe terapia para converter hétero em homossexual e violência contra quem quer ter relacionamentos com pessoas do sexo oposto. E não o contrário…

Até a semana que vem por aqui, ou, se preferir, me encontre no Facebook ou no Twitter.