No último dia 8, além dos incontáveis textos sobre o Dia Internacional da Mulher (inclusive um meu), a internet amanheceu intrigada. A página Quebrando o Tabu, no Facebook, compartilhou uma questão que foi compartilhada 100 mil vezes:

Muitos mataram logo de cara quem era a pessoa do ‘enigma’. Outros ficaram pensando… Alguns porque acharam que, pelo jeitão da pergunta, a resposta não poderia ser a mais óbvia. Outros porque não conseguiram mesmo imaginar que fosse uma mãe a pessoa mais competente de um centro cirúrgico. E é nesse terceiro caso que mora o problema.

Teve quem pensasse no padrasto, no marido do pai, no avô, em incontáveis figuras masculinas que pudessem salvar a vida daquela criança. Não que essas respostas não fossem possíveis. Fato é que algumas pessoas não foram capazes de imaginar uma mãe empunhando um bisturi – uma mãe que fuja do estereótipo de mãe, cozinhando, limpando, cuidando.

Os estereótipos são assim: os carregamos conosco desde cedo e só nos damos conta de que eles limitam nossa visão de mundo quando somos colocados diante de uma situação nova, como essa questão. Isso me lembrou de um experimento muito legal que vi no ano passado:

As professoras convidam os alunos a desenhar (ou seja, imaginar) uma pessoa que faz cirurgia, outra que pilota aviões e uma que combate o fogo. A maioria desenhou um homem. E é possível ver a carinha de surpresa das crianças quando descobrem que, na verdade, eram três mulheres.

De forma leve e divertida, aquela escola ‘bagunçou’ os estereótipos e mostrou, para meninos e meninas, que as mulheres podem exercer funções hoje majoritariamente ocupadas por homens.

Efeito oposto teve o discurso de Michel Temer em cerimônia de homenagem ao Dia da Mulher no Palácio do Planalto. Em vez de ampliar o papel das mulheres na sociedade, o presidente o restringiu, reforçando estereótipos que são questionados pelo menos desde a década de 50.

Houve quem desculpasse o discurso citando a idade de Temer – 76 anos. Houve quem dissesse que, apesar de anacrônica, sua fala não teria efeito nenhum sobre a situação das mulheres. De fato, não há discurso capaz de sanar, de uma tacada, todas as desigualdades de gênero que notamos no Brasil. Mas certamente há discursos que fazem um desserviço.

#mansplaining. Ainda no dia 8, também houve quem dissesse que o feminismo é importante demais para ficar nas mãos das feministas. É claro que a igualdade é um tema para todos. Não à toa existe a campanha HeforShe, da ONU, para incentivar os homens a se engajar na causa. Sugere um colunista, porém, que as mulheres precisam de ‘tutores’ para não se perder em questões menores enquanto deveriam combater os grandes problemas. Entre as questões menores, as críticas aos peitos da Emma Watson e à nova campanha da Saint Laurent. Esquece, porém, que não se trata dos peitos da atriz, mas do controle sobre o corpo feminino; não se trata de mera ousadia estética, mas de reiterado incentivo à cultura do estupro. De resto, mais um homem querendo explicar “o que importa” para “mulheres de verdade” (?!).

Ah, a internet. Na semana passada, disse que, se alguém ainda duvidasse da existência do machismo, poderia colher evidências nos comentários. E eles não falharam:

“Eu preciso do machismo pois 90% das brigas judiciais por guarda e pensão são ganhos por mulheres, de cada 11 mortes por violência 10 são de homens, homens são apenas 40% nas universidades, não tem dia internacional, hospitais especializados e muito menos leis que beneficiem apenas por ser homem, o câncer de próstata mata proporcionalmente o mesmo que o de mama, mas adivinhem onde são gastos mais com prevenção e campanhas? Homens são 80% dos moradores de rua e cometem 90% dos suicídios, o exército é obrigatório apenas para homens, licença maternidade é de 180 dias e pais pegam apenas 5 dias, trabalhamos 5 anos a mais para aposentar e morremos 8 anos antes, quando o Titanic afundou 80% dos homens morreram e 80% das mulheres sobreviveram, o feminismo vive bradando por ai que mulheres são apenas 5% dos CEO nas empresas, mas não falam nada de que homens ocupam 95% dos cargos de lixeiros, pedreiros e em minas de carvão, o trabalho costuma ser obrigatório e cobrado apenas aos homens, enfim, homens e mulheres sofrem, mas apenas um lado fica de mimimi”

Brilhantemente respondido por uma leitora:

Mariê Oestmann se você acha que por tudo isso você precisa “do machismo”, você não entendeu o que é feminismo.

“Ou são mal amadas, ou odeiam homens, ou são feias ou são gordas, ou são loucas…As mulheres só tem a perder com este tipo de pessoa. Feministas não lutam por direitos das mulheres, denigrem as mulheres. Se for uma mulher de respeito terá respeito se não for não terá.”

“Hauahauahai boa luta, mas não esquece de limpa bem a pia! kkkk”

“Todo dia é dia do homem, somos protagonistas nesse mundo,rsrrsrsr”

“No tanque, na pia, no fogão, todo dia é dia da mulher para comemoração.”

“Feminismo, a droga do século junto com o gayzismo….dois movimentos de bosta….TODOS SOMOS SERES HUMANOS E VCS QUE FICAM SE DIMINUINDO”

Mas também foi possível topar com várias mensagens encorajadoras. Escolhi algumas delas, feitas por homens, para agradecer.

Luiz Augusto Pereira Miranda Que um dia tenhamos uma sociedade mais igualitária, não só para mulheres, mas tb para os negros e homossexuais, que as oportunidades realmente sejam medidas por méritos, não por estereótipos e preconceitos. Feliz dia das mulheres!

Thiago Alves Aí vem gente dizer que buscar igualdade agora é buscar “privilégio”. Em pensar que um dia, eu já pensei assim mas aí parei pra dar uma analisada bem fora da minha zona de conforto e mudei esse pensamento. Aconselho todos a pesquisar sobre conceitos de igualdade formal e material e qual faz mais sentido em um país e mundo como o nosso mas leia, pare e reflita. Não se limitem a vídeos e textões de páginas extremistas. Errar é humano, permanecer no erro só pra se encaixar com o que os ditos “cidadãos de bem” dizem, é burrice.

Rafael Mello Parabéns pra todas as mulheres que atualmente acordam cedo, seja pra trabalhar e/ou pra estudar na intenção de ser alguém na vida e lutar pelos seus direitos, e digo o mesmo pra todas que já fizeram isso anteriormente, apesar de muitas dificuldades enfrentadas, estão aí firme e forte, ainda na luta pelo respeito, pela paz e amor.

Dos dois lados. Quando se fala de discriminação, há sempre o conselho: tente se colocar no lugar do outro. Mas nem sempre conseguimos fazer isso. Um homem pode tentar, mas dificilmente entenderá o que é ser uma mulher (e vice-versa). E eu, branca, posso me esforçar, mas talvez nunca consiga compreender o que é ser negra. Algumas pessoas, porém, estão mais próximas de conseguir fazer isso, pelo menos no que diz respeito ao gênero: os transexuais. A revista Time fez uma série de entrevistas com homens trans e descobriu exemplos interessantes da forma como mulheres e homens são tratados pela sociedade. Um dos efeitos de trocar de sexo foi ganhar respeito no trabalho. Mas nem tudo foi positivo.

O escritor Martin Schneider fez o caminho contrário recentemente. Ele não mudou de sexo, mas usou, por engano, a conta da colega de trabalho, Nicole Knacks. Foi ignorado e recebeu respostas rudes de um cliente. Achou estranho, quando percebeu a troca, passou a responder em seu próprio nome. Nem preciso dizer que tudo foi resolvido rapidamente.

Há dezenas de experimentos assim – um deles, por exemplo, disfarçou a voz dos candidatos, para ver se os homens eram mais bem avaliados que as mulheres. Adivinhem o resultado…

#Freedom. De férias, dei férias para a minha pele. Praticamente não usei maquiagem e, ao final de 20 dias, me espantei ao notar que não achava minha pele tão estranha. Tinha me acostumado com meu próprio rosto! É sobre isso que a Gabriela Marçal falou em seu blog: como é libertador ser quem a gente é. Sem maquiagem, sem chapinha, sem esmalte, o que seja. É bom quando essa ficha cai. Mas é bom também aquele BB Cream esperto para as noites mal dormidas depois de ficar escrevendo um post!

Até a semana que vem por aqui, ou, se preferir, me encontre no Facebook ou no Twitter.