Gays, lésbicas e bissexuais já estão definitivamente incorporados ao nosso cotidiano – embora ainda sejam alvos de preconceito e discriminação. Mas o “T” e o “Q” da sigla LGBTQ ainda geram dúvidas e curiosidade. Menos retratados em livros, filmes, séries e novelas, os transgêneros e os chamados “genderqueer” (ou não-binários) desafiam não só a orientação sexual (homo ou hétero), mas as identidades de gênero (homem e mulher).

Dar visibilidade à experiência dessas pessoas é o objetivo do livro Vidas Trans (Editora Astral Cultural), lançado na semana passada. A obra – com prefácio da Laerte, cartunista que, depois de muitos anos como homem hétero, assumiu identidade feminina – reúne depoimentos de quatro pessoas trans. A acadêmica Amara Moira e a advogada e empresária Márcia Rocha são travestis. O psicólogo João W. Nery e o modelo T. Brant, homens trans.

A primeira curiosidade de quem começa a ler é saber da transformação física. Como Joana decidiu retirar as mamas – numa época em que essa cirurgia era proibida – para se tornar João? Como Omar deixou de lado os pelos e assumiu a peruca e o salto de Amara? Como Marcos decidiu implantar silicone e abandonou o guarda-roupa masculino para se transformar em Márcia? Como T. Brant começou a tomar hormônio e cortou o cabelo para deixar Tereza para trás?

As transformações físicas são importantes. Elas fazem parte da busca pela identidade que essas pessoas não encontram quando se olham no espelho. E vêm com esforço e riscos – afinal, ninguém se submete a cirurgias por esporte.

Mas elas são apenas uma parte da vida dos transgêneros. A questão maior e mais importante, descobri lendo esse livro, é a busca de uma identidade, de respeito e de amor. De resto, como na vida de todos nós.

O livro mostra as confusões adolescentes e a postura de desafio em relação aos pais e à sociedade. E a tendência de buscar saídas mergulhando na internet e na relação com os amigos.

Mostra o receio de não ser aceito e de ser julgado por ser diferente – seja um jeito de falar, um detalhe da aparência ou do comportamento. E a tentativa de se encaixar nos padrões.

Mostra os encontros e os desencontros amorosos. E o medo de ficar só.

Mostra os esforços para ocupar espaços profissionais. E as dificuldades para ser reconhecido.

Mostra as descobertas de preferências e de limites. E a possibilidade de se redescobrir e construir uma trajetória própria.

Essas pessoas fazem tudo isso, como nós. Mas, muitas vezes, fazem sem a ajuda da própria família, dos amigos e da sociedade. E contra suas dúvidas e seus próprios preconceitos internalizados. Traçam um caminho a despeito das dificuldades, do preconceito, da discriminação e da violência.

Amara tem que pensar antes de deixar a pessoa que gosta dela demonstrar afeto publicamente. Ela diz que já encontrou “estrutura” para lidar com os olhares, mas quer proteger quem ama da violência. Márcia passou a ser discriminada no clube que frequentou a vida inteira. T. se escondeu por vários anos no mundo virtual. Na falta de uma lei que reconheça os transgêneros, João deixou para trás todo o histórico escolar e a clínica de psicologia e teve que sobreviver de novos ofícios, da costura à construção civil. No domingo, João W. Nery me explicou o que é ser trans e falou da necessidade de ter de lutar pelos próprios direitos.

Com todos os percalços, lutam e vivem num país em que a homofobia e a transfobia mataram ao menos 343 pessoas no ano passado, num país em que a taxa de suicídio entre a população trans chega a 40%.  

Vale a pena ler Vidas Trans. Para lembrar que são vidas, como todas – ainda que com mais dificuldades e lutas. E que merecem respeito.