O primeiro quadrinho sobre o Super Homem foi lançado em 1938. Em 1941, vieram os curtas de animação; em 1948 e 1950, filmes seriados para cinema e, em 1951, o primeiro longa. Desde então, dez filmes foram feitos sobre o super herói.

A primeira história sobre o Batman apareceu em 1939 e ganhou versões em filme seriado já na década de 1940. O primeiro filme do homem-morcego veio em 1966 e foi seguido de mais oito produções para o cinema, além de séries para TV.

A Mulher Maravilha surgiu nos quadrinhos em 1941. Teve uma série de TV na década de 1970, uma animação em 2009…. e um filme – um filme! – em 2017. São DÉCADAS de (in)diferença.

Só isso já seria 1 motivo para ir ver o filme inspirado na heroína da DC Comics. A principal concorrente no mundo dos super heróis, a Marvel, só prevê um filme protagonizado por uma personagem em 2019. Capitã Marvel será vivida por Brie Larson.

Mas há mais razões para ir ao cinema. Mulher Maravilha é o primeiro filme do gênero dirigido por uma mulher (2). Patty Jenkins teve que lutar para mostrar que as pessoas querem, sim, ver uma super heroína na telona. Um dos principais argumentos dos estúdios para negar produções eram os fracassos de Super Girl (1984), Mulher Gato (2004) e Elektra (2005).

Os resultados mostram que a diretora tinha razão em insistir. Seu filme faturou US$ 223 milhões no fim de semana de estreia. Mais do que Thor, do que O Homem de Ferro e do que Guardiões da Galáxia. Talvez porque, mais importante do que o sexo do protagonista, seja a qualidade do filme, não é mesmo?

Mulher Maravilha também é o segundo filme com orçamento de mais de US$ 100 milhões a ser comandado por uma diretora (3). A produção custou US$ 150 milhões. E teve quem chamasse de ‘loteria’ a decisão do estúdio de dar essa dinherama na mão de uma mulher. Será que, se fosse um homem, não diriam que foi uma ‘aposta corajosa’?

Mas a produção tem méritos que vão além dos marcos históricos.

A escalação da israelense Gal Gadot para o papel principal é outro acerto (4). Esguia e forte, ela consegue, nas palavras de Jenkins, fazer uma Diana, princesa de Temiscira, “gentil, afetuosa, compreensiva e fodona”. Alguns a criticaram por ser bonita ou magra demais – personagens, homens e mulheres, de fato passam o filme todo elogiando sua beleza. Mas ela não se torna um objeto – câmera não foca excessivamente seu corpo.

Diana continua tendo seus interesses, sua luta. E ganha respeito e admiração – de shortinho, sim!

O feito se torna ainda mais impressionante quando sabemos que Gadot estava grávida da segunda filha. Aos cinco meses de gestação, regravou cenas de luta, no frio, com uma ajudinha da computação gráfica. A equipe fez um buraco em seu uniforme e o cobriu com pano verde, para que fosse retocado digitalmente. “Em close, eu realmente parecia a Mulher Maravilha. De longe, estava muito engraçado, como se a personagem estivesse grávida de Caco, o Sapo”, diz a atriz.  

Outro mérito é que o filme não segue a história original da personagem, filha de Zeus com a rainha Hipólita (5). Na primeira aparição nos quadrinhos, Diana sai da ilha das amazonas por amor a Steve Trevor, capitão americano que, fugindo dos alemães, vai parar na praia de Temiscira. Uma segunda versão da história, ainda nas revistas, fala que ela cumpre o destino dado pelos deuses ao deixar a ilha para lutar na I Guerra Mundial. Só mais recentemente, já na década de 1980, Diana decide, por vontade própria, em respeito aos seus ideais, ir para a luta. E é essa versão usada pelo filme.

Também é memorável a cena da luta das amazonas, com seus cavalos, lanças e flechas, contra os alemães. Raras vezes as mulheres estão no campo de batalha, ainda menos nessa proporção e com tanta habilidade (6). É surpreendente, é bonito. Para mim, deu vontade de retomar o muay thai já e ver um filme todo só sobre a vida dessas guerreiras em Temiscira.

O fato de ter vivido em uma ilha mágica inteiramente feminina explica a ingenuidade de Diana sobre a maldade humana, mas também permite a ela questionar o modo como a sociedade trata as mulheres (7). Várias coisas melhoraram, outras continuam as mesmas desde o início do século XX…

A princesa não entende por que elas não estão nos campos de batalha – nem os generais, que discutem a guerra do conforto de um gabinete. Não entende por que elas precisam usar roupas tão desconfortáveis. Nem por que precisa de óculos para, segundo Trevor, chamar menos atenção – uma piadinha também com o ‘disfarce’ de Clark Kent. Diana não sabe nem precisa saber o que é machismo para combatê-lo.

Houve quem criticasse o fato de ela ter axilas depiladas. É uma questão válida: será que, em uma ilha só com mulheres, elas seriam adeptas da depilação? Outro fato que me incomodou foi Doutora Veneno, a vilã, ser uma mulher mutilada. É como se a feiúra – e a falta de atenção masculina – estivesse na raiz de seu ódio pela humanidade. Hmmm… algo me diz que isso não justificaria inventar um gás letal.

Mas esses pontos, na minha opinião, estão longe de colocar por água abaixo a força da Mulher Maravilha como um símbolo feminista.

Diana desobedece aos conselhos da mãe, aprende a lutar e decide ir para a guerra (8). Desafia as regras sociais, fala sem ser convidada em lugares só frequentados por homens (9). Contraria as ordens de Trevor, para no meio da missão para salvar um vilarejo por compaixão a mulheres e crianças (10). Isso tudo com humor e empatia, e uma trilha sonora contagiante. Curiosidade: não é uma guitarra, mas um violoncelo elétrico, tocado por Tina Guo.

Mulher Maravilha não é o melhor filme do mundo. Nem precisa ser – assim como os filmes de outros super heróis não são. Mas é um baita filme. E traz tantas novas visões e questões que me arrisco a recomendar a todos, homens e mulheres, acima dos 12 anos, que é a classificação indicativa do filme.