Presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia é uma das três principais autoridades do País, ao lado dos chefes do Executivo (Michel Temer) e do Legislativo (Rodrigo Maia e Eunício Oliveira). Ainda assim, não sente que tem espaço para falar. E deixou isso bem claro na sessão desta quarta-feira, 10, na Corte. O diálogo foi transcrito pelo site jurídico Jota.

Se até Cármen Lúcia, presidente do Supremo, sente falta de espaço para falar…

Cármen Lúcia: Ministra Rosa Weber, Vossa Excelência tem a palavra para voto.

Rosa Weber:Ministro Lewandowski, o ministro Fux é quem tinha me concedido um aparte.

Cármen Lúcia:Agora é o momento do voto…

Luiz Fux:Concedo a palavra para o voto integral (risos).

Cármen Lúcia:Como concede a palavra? É a vez dela votar. Ela é quem concede, se quiser, um aparte.

Foi feita agora uma análise, só um parêntese. Foi feita agora uma pesquisa, já dei ciência à ministra Rosa, em todos os tribunais constitucionais onde há mulheres, o número de vezes em que as mulheres são aparteadas é 18 vezes maior do que entre os ministros… E a ministra Sotomayor [da Suprema Corte americana] me perguntou: ‘como é lá?’ Lá, em geral, eu e a ministra Rosa, não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas.

Mas agora é a vez de a ministra, por direito constitucional, votar. Tem a palavra, ministra.”

O Buzzfeed conseguiu um vídeo do momento no Supremo.

A pesquisa a que a ministra se refere avalia o efeito do gênero, da ideologia e da idade nos debates dentro da Suprema Corte americana. Feita por Tonja Jacobi e Dylan Schweers, da Northwestern Pritzker School of Law, foi publicada em março.

Os pesquisadores analisaram as discussões no Supremo americano desde 1990 e descobriram um padrão praticamente constante: as mulheres são interrompidas, em média, três vezes mais que os homens – isso embora elas falem com menos frequência e por menos tempo do que eles. Detalhe: elas são interrompidas não só por pares da Corte, mas também por advogados, que, segundo a regra, são proibidos de cortar a fala de um juiz e deveriam ser repreendidos por isso.

Quanto à ideologia, o estudo mostra que os liberais são mais interrompidos pelos conservadores do que vice-versa. A idade tem um papel menor, mas adicional: juízes mais velhos e conservadores tinham muito mais chance de interromper juízas mais jovens e liberais.

E aí, faz sentido com o que você vê no seu dia a dia?

Um dos achados mais interessantes da pesquisa de Jacobi e Schweers é que, com o tempo, as ministras mudaram seu jeito de falar, ficando mais parecidas com seus pares. Elas pararam de usar algumas expressões como “gostaria de perguntar” no início das frases, para tentar diminuir as chances de uma interrupção.

Já que temos pouco tempo para falar, melhor ir direto ao assunto, não é mesmo? Não é difícil encontrar mulheres em posições de chefia que adotam esse estilo diretão. Antes de julgá-las como “grossas”, como muitas vezes acontece, lembre-se de que pode ser uma estratégia para se fazer ouvir. E se pergunte: você classificaria um homem direto como “grosso” ou só como “objetivo”? Então…

A falta de espaço para falar destacada por Cármen Lúcia e pelo estudo já ganhou até nome específico. Manterrupting, que é quando um homem não deixa a mulher falar, simples assim. E é tão comum que, possivelmente, muita gente nem percebe. Mas, se você quiser tirar a prova, lançaram até um aplicativo que calcula os cortes – e vai servir para coletar dados sobre esse fenômeno no mundo.

Tem também o Mansplaining, que é quando a mulher recebe uma aula não requisitada sobre um assunto em que, muitas vezes, ela é especialista. Uma das minhas histórias preferidas é de um cara qualquer no Twitter que decidiu explicar física para uma astronauta da Nasa. Me poupe, se poupe, nos poupe, né?

Histórias estapafúrdias à parte, Cármen Lúcia tem desempenhado um papel fantástico ao falar sobre as dificuldades das mulheres no dia a dia – mesmo em esferas tão seletas como o Supremo Tribunal Federal. Em várias ocasiões ela vem se manifestando sobre desigualdade de gênero e, no 8 de março, Dia da Mulher, disse aos ministros da Corte: “Nós temos um dia, Vossas Excelências têm todos os outros”.

Nesta quarta, Cármen Lúcia citou essa pesquisa que mostra que ainda faltam igualdade, neutralidade e equilíbrio de poder até nas discussões mais importantes para um país. E lembrou que é preciso fazer um esforço para ouvir mais vozes, vozes femininas, vozes mais jovens. Sob o risco de reforçar tudo isso que aí está – e que, convenhamos, não está dando muito certo…