13 Reasons Why

13 – machistas – reasons why

Por Letícia Sorg

17/04/2017, 11h21

   

Nem suicídio, nem bullying, série do Netflix acerta ao mostrar os efeitos da violência desde cedo na vida das meninas

Hannah Baker, de '13 reasons why' - Divulgação

13 Reasons Why, do Netflix, tem gerado muito debate. Sobre suicídio e bullying. Para quem não está familiarizado, a série conta a história de Hannah Baker, que decide se suicidar e deixa treze fitas cassetes gravadas explicando por quê. Seus colegas a decepcionaram, de um jeito ou de outro, e a escola também.

Depois de uma primeira onda e elogios, com a criação da hashtag #NãoSejaUmPorque, incentivando os jovens a se tratarem com mais amor e respeito, críticos e especialistas encontraram vários problemas na produção. O primeiro e mais grave é que ela mostra, de maneira detalhada, uma cena de suicídio. Segundo vários estudos, esse tipo de encenação pode virar um gatilho para outros casos – justamente o contrário da intenção da série. É por isso que, em geral, se a imprensa noticia um caso de suicídio, evita dizer como foi cometido.

Um segundo problema é que, da maneira como a história se desenrola, dá a impressão de que Hannah estava certa: a vida é mesmo muito dura e não existe ninguém que possa salvá-la. Na única vez em que tentou pedir ajuda a um adulto, ela não recebeu uma resposta adequada. Mas isso está longe de ser a regra – e também não é a melhor mensagem para quem quer prevenir o suicídio entre adolescentes.

Por fim, só para ficar nas questões mais importantes, a série não fala de depressão ou doenças mentais, que geralmente estão associadas ao suicídio. É como se só as atitudes dos colegas de Hannah fossem responsáveis por sua partida. Muitas meninas passam por situações parecidas com as que ela enfrenta sem, contudo, tirar a própria vida. O estado mental tem grande importância nessa situação extrema – por isso, especialistas têm recomendado que pessoas com depressão, por exemplo, não assistam à série.

Como se vê, não é uma série leve. E, apesar da narrativa arrastada e das situações por vezes irrealistas, tem o poder de nos fazer pensar sobre uma infinidade de questões. Solidão, amizade, relação entre pais e filhos, papel da escola… E uma das críticas é que, justamente, ao tentar falar de tudo, >13 Reasons acaba falando de nada. I beg to differ. Achei que existe um tema bem consistente: o machismo e o impacto que ele tem na vida das mulheres desde cedo.

Temos falado mais dos feminicídio, como o caso de Mirella, na semana passada. E do assédio, depois de Susllem Tonani, mas há muitas formas de violência contra as mulheres. E é isso que a série mostra. Fui anotando e descrevo aqui 13 maneiras como o machismo ajuda a colocar em risco a vida de Hannah e de suas colegas. E 13 formas de agir para que você #NaoSejaUmPorqueMachista.

Tentei não dar – muito – spoiler. Mas, se você ainda vai ver a série, talvez seja melhor voltar ao texto depois.

1 Imagens íntimas
Após dar o primeiro beijo, Hannah descobre que o mocinho tirou uma foto indiscreta. Mostrou para os amigos e um deles enviou para meia escola. Pronto, lá estava seu primeiro e inocente encontro à espera da maldosa interpretação alheia.
#NaoSejaUmPorQueMachista: nunca tire fotos íntimas nem repasse para os outros sem autorização. Se uma imagem chegar até você, apague. Não ajude a espalhar um conteúdo que pode causar danos aos envolvidos – e pode ser classificado como crime, ainda mais grave se a pessoa retratada for menor de idade.

Justin Foley e amigos, em '13 reasons why' - Divulgação

2 Slut shaming
Não contente em espalhar a foto de Hannah, o moço se vangloria de ter transado com ela. Era uma mentira, que não impediu que ela fosse tachada de ‘vagabunda’. Ainda que fosse verdade, por que uma menina precisa ter vergonha de viver sua sexualidade? Por que meninos podem e meninas, não?
#NaoSejaUmPorQueMachista: Não espalhe informações íntimas para contar vantagem ou denegrir a imagem de alguém. Não julgue as pessoas por seu comportamento sexual. Lembre-se: as meninas e mulheres têm direito à sua própria sexualidade, tanto quanto meninos e homens.

3 Objetificação
Com o ego ferido e tentando se enturmar, um dos adolescentes faz uma lista com as meninas mais bonitas da escola. Com uma particularidade: elege as partes mais bonitas do corpo delas, pernas, bunda, seios… E, enquanto uma menina elogiada por seus lábios fica feliz, Hannah sofre com seu título.
#NaoSejaUmPorQueMachista: É difícil imaginar que meninos e meninas vão parar de discutir as aparências uns dos outros. Mas fazer esse tipo de lista, que trata meninas e mulheres como pedaços de carne, é problemático. Algumas podem se sentir lisonjeadas, mas é preciso entender e respeitar se alguém tomar como ofensa.

4 Competição
Além de reforçar a ‘má’ fama de Hannah na escola, a lista a afasta de sua melhor amiga. A relação entre as duas é mais de competição e desconfiança do que de amizade.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Em muitas histórias da ficção as mulheres são retratadas como inimigas. Questione essa ideia no dia a dia e descubra que elas podem ser suas mulheres aliadas e confidentes. A série mostra o quanto é importante poder confiar em alguém, mesmo que seja uma única pessoa. Tente ser essa pessoa para outras – e outros.

5 Assédio sexual
A tal lista continuou fazendo estrago e foi a partir dela que Hannah sofreu vários assédios e uma primeira agressão física. Desconfortável, para dizer o mínimo. Mas, como dizem na série, nada que nenhuma outra menina não tenha vivido.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Não se sinta no direito mexer com alguém na rua ou no corredor da escola – #ChegadeFiuFiu – nem de tocar o corpo de alguém sem consentimento. Bom lembrar que, na lei brasileira, esse comportamento caracteriza estupro.

6 Stalking
Os meninos não deixaram Hannah andar em paz pelos corredores. Faziam caras e bocas atrás dela. E, um dia, ela descobriu que estava sendo observada fora da escola. Não conseguia se sentir segura nem dentro do próprio quarto.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Meninas e mulheres se sentem mais vulneráveis – justamente porque sabem que podem ser vítimas de violência a qualquer momento. Não persiga, não reforce essa medo. Tente fazer da escola, da rua, da casa do amigo, ambientes mais seguros para elas.

7 Nada é convite
Elas podem usar roupas curtas, justas. Podem ter bebido além da conta. Nada disso é desculpa ou justificativa para avançar sinais, como aconteceu na festa da personagem Jessica.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Não julgue mulheres e meninas pela roupa que vestem nem pelo tanto de bebida que consomem. Lembre-se: ‘não’ continua significando ‘não’.

8 Consentimento
Na série, um dos meninos entende que, se a menina está bêbada e não consegue articular uma resposta, não é sexo o que está acontecendo. Um outro também descobre que a menina pode estar lúcida e tê-lo convidado para o quarto – mas pedir para parar a qualquer momento. Nem todos os personagens, porém, aprenderam a lição.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Uma pessoa incapaz de conversar é uma pessoa incapaz para o sexo. E o ‘sim’ pode se transformar num ‘não’ se qualquer uma das partes se sentir desconfortável. Não importa a intimidade que se tenha. Sexo sem consentimento é estupro.

9 Brotherhood
Assim como as mulheres são retratadas como inimigas, os homens geralmente são vistos como tão ‘brothers’ que protegem uns aos outros mesmo que haja uma conduta criminosa. Pode até não ser real essa irmandade, mas ela tem um papel importante na série – e na morte de Hannah.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Amizades são importantes, mas não há amigo que valha desrespeitar os nossos valores. Se não gostar do comportamento do grupo, se afaste. Se presenciar atos de desrespeito e crimes, denuncie. Ajude a interromper o ciclo de violência.

Clay Jensen ouve as fitas de Hannah, em '13 reasons why' - Divulgação

10 Vergonha
Do próprio corpo, dos pais, dos amigos. A vergonha é um sentimento muito presente na adolescência, especialmente entre as meninas. E leva a uma questão mais grave: o silêncio. Uma amiga se refugia no álcool. Sem compartilhar seus problemas, Hannah não consegue enxergar saídas.
#NaoSejaUmPorQueMachista: A internet trouxe problemas como o ciberbullying, mas também é uma ferramenta ótima para descobrir que muitas pessoas tiveram experiências parecidas, e conseguiram seguir adiante. Mesmo que você tenha vergonha do que pensou ou viveu, conte para alguém de sua confiança.

11 Estupro
As cenas desconfortavelmente longas e realistas da série descrevem a gravidade desse ato. As imagens, dizem os especialistas, podem ser problemáticas para vítimas da violência – daí o conselho para que reflitam antes de assistir. Espero, porém, que possam trazer consciência para potenciais agressores.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Estupro não é sexo e prazer, mas dominação e uso. Trata-se de um crime, de uma violência indesculpável. Se você souber de um estupro ou se for vítima de um, denuncie o agressor. Dificilmente será a primeira ou a última vítima.

12 A culpa da vítima
Para alguém que sofreu assédio ou estupro, é difícil reunir forças para falar sobre a violência. Pior ainda se, como aconteceu com Hannah, topar com alguém mais preocupado com detalhes jurídicos do que com a dor da vítima.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Se uma menina ou mulher contar um ato de violência, não pergunte que roupa ela vestindo, quanto tinha pedido e se tentou dizer não ou reagir. Assim como há quem acelere o carro diante de uma tentativa de assalto, há quem nem consiga se mexer para passar a bolsa. E não culpamos as pessoas por serem assaltadas. A culpa é sempre do agressor.

13 Engole o choro
Como já falei aqui, também os meninos e homens são vítimas do machismo. Espera-se deles uma força, uma postura, um silêncio especialmente prejudiciais na adolescência, quando temos tantas dúvidas e fortes emoções. Hannah é quem se suicida na série, mas as estatísticas mostram que, na realidade, meninos e homens são a maioria entre as vítimas. Como pedir ajuda, chorar e conversar são comportamentos geralmente associados ao feminino, meninos e homens muitas vezes vivem sua dor sozinhos, aumentando os riscos de suicídio.
#NaoSejaUmPorQueMachista: Não cobre dos meninos comportamentos estereotipados como não chorar e não falar dos problemas. Eles têm os mesmos direitos que elas de compartilhar suas questões e pedir ajuda.

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**Quem acompanha este blog sabe que eu vinha tentando fazer um resumo da semana na ótica das mulheres. Estava ficando bem extenso e, talvez, improdutivo para os leitores. Vou tentar, então, escrever textos mais curtos, ao longo da semana. Os temas, claro, continuam os mesmos!

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