Interessante. Num momento extremamente delicado da política nacional, a Disney estreia o filme Zootopia, que parece nos cair como uma luva. Não, o filme não é político, mas traz questões políticas como a corrupção, a sede pelo poder, o preconceito, a justiça, a polícia, o dinheiro, a ascensão profissional. Até a indústria de multas está lá. Fala também do papel do feminino no mercado de trabalho, e mais uma série de questões cabíveis ao mundo contemporâneo em que vivemos. Tudo isso embrulhado por personagens fofos, de animação infantil. Pra ser leve de ver. Afinal, É um filme de animação infantil.

 

Mas leva a gente a pensar sobre o mundo utópico. O mundo idealizado no imaginário. Aquele que gostaríamos de construir (e viver). No filme, o grande desafio dos animais é conviver em harmonia entre diferentes espécies (totalmente aplicável a nós, seres humanos, nos dias de hoje). E eles, animais, conseguem essa proeza de convivência amigável. Animais predadores se relacionam com mamíferos. Eles não se comem, não se matam, dividem o mesmo espaço social e econômico. Eles se respeitam. Uou! Estamos longe desse mundo utópico. Ou zootopia.

 

Por aqui é quase um bang bang, e vale a máxima dos meios que justificam o fim. Tudo muito inexplicável. Ainda mais quando o ser humano insiste em justificar seu instinto agressivo como algo animal, des-humano. Não, são humanos mesmo. Animais não matam por matar, não batem por bater, não são violentos se não precisam se defender. Nosso instinto de sobrevivência é bem diferente do dos animais. Eles é que deviam nos xingar de animais. Antagônicos dessa vida.

 

E em Zootopia ainda temos a questão do empoderamento feminino envelopado por uma doce coelhinha que sai de casa porque sonha em ser policial na cidade grande. Vira chacota na escola, na faculdade e depois no local de trabalho. Até provar (não pela força, e sim por capacidade) que é capaz de ocupar o cargo que lhe é designado. Ela é a super-herói do filme. Com a raposa, que prova que é capaz de controlar seu instinto traiçoeiro e ajudar pelo bem da verdade. Ou seja, as aparências enganam. O filme desconstrói um monte de conceitos preestabelecidos. Veja bem: um bicho-preguiça trabalha no atendimento de serviços públicos da prefeitura. Com a lerdeza que lhe é característica, faz o atendimento nos guichês. Alguma coisa estranha nessa cena? Simbólica, no mínimo.

E de simbolismos a vida está cheia. Assim como o filme Zootopia. As crianças vão gostar de ver, sem dúvida alguma. E a gente sai de lá com a pulga atrás da orelha. Tentando fazer a relação com o mundo que somos e aquele que gostaríamos de ser. “Ideologia, eu quero uma pra viver”, já cantava Cazuza. Porque, se a gente não acreditar na mudança, ou não idealizá-la, pergunto: estamos fazendo o que por aqui?